Artista plástico, Juca Máximo assina obras em exposições internacionais e fala sobre inconsciente

Juca assina um dos painéis da exposição Janelas CasaCor 2020

Foto: Divulgação

Entre a arte, os sonhos e as ambições sobre o conhecimento, Juca Máximo se posiciona. Artista plástico cearense, Juca, de 36 anos, assina obras, trabalhos e séries que muito se inspiram no corpo humano, na poesia e na ausência. Entre eles, está "Absence Yourself", série que já marcou presença em exposições internacionais, como em Taiwan, China, Estados Unidos e Inglaterra. Uma extensão da série está inclusive na exposição Janelas CasaCor 2020, que segue na Beira Mar até o próximo 25 de janeiro. 

O artista conversou um pouco com a Frisson sobre si, sua arte e como ambas se encontram. Confira a entrevista:

Frisson: Pode contar um pouco de como você se encontrou na arte?

Juca Máximo: Meu despertar foi aos 13 anos de idade, quando peguei na primeira guitarra. Não tocava nenhuma nota naquele momento, mas a vontade de criar sensações, sentimentos e não só participar do mundo passivamente começou naquele dia e a arte permanece em mim desde então. O que mudou foram as formas e as matérias. E continuam mudando.

Frisson: Entre seus trabalhos, qual destacaria como o que mais te define como artista?

Juca Máximo: Nem sempre os trabalhos que mais gostamos são os que mais obtêm resultados no mundo da arte. Lembro que quando finalizei as primeiras obras da série Expressionism pensei que finalmente tinha achado meu traço, só que vieram outras séries mais importantes e feitas pelo meu inconsciente como as Absences e Gravity.

Talvez por eu criar descaradamente com algo que vem fortemente dentro de mim, sem muitas interferências externas, essas outras séries se tornem mais próximas de quem sou, como fala o filósofo polonês Arthur Schopenhauer: “somos representações de nós mesmos na sociedade”. Nessas obras, me vejo mais do que muitas das minhas representações criadas pela minha consciência durante toda minha vida.

Frisson: Além das artes plásticas, que outras ramificações da arte você se aventura? 

Juca Máximo: Comecei na música, toco vários instrumentos de corda como violoncelo, guitarra, bandolim 8 cordas, banjo. Poucas pessoas sabem, mas depois da música me aventurei na fotografia, minha primeira câmera foi uma mecânica FM1 da Nikon, eu não saia do laboratório de revelação da faculdade na época. Depois migrei para a publicidade, trabalhando como Diretor de Arte por mais de 10 anos, até pintar meu primeiro quadro em dezembro de 2016.

Frisson: Como nasceu a série “Absence Yourself”? E do que exatamente ela se trata?

Juca Máximo: Todo artista cria uma grande história sobre como suas séries surgem, quase sempre romantizadas e poéticas. A série Absence realmente foi algo romântico, eu simplesmente sonhei com uma série que sugeria para nos ausentarmos de tudo que não nos pertence, para investigarmos o que é nosso de verdade, para tentar descobrir o que está guardado dentro da gente, o que não faz parte do todo, do aglomerado de informações que nos moldam e que a gente recebe desde o nascimento.

Mas também tem um outro lado, além desse romantismo todo. As minhas séries vêm com muita pesquisa artística, principalmente nas áreas da psicologia, psicanálise, filosofia, relações religiosas e ultimamente na neurociência. E eu não posso deixar de lado conversas, reflexões. Fiz um grande amigo na minha viagem para Taiwan, o Phuntsho Wangdi, ele é um budista que mora no Butão, conversamos muito sobre sua relação com Deus.

Frisson: Você previu as máscaras dois anos antes de seu uso. De onde surgiu essa inspiração e o que elas significam? 

Juca Máximo: A série veio de um sonho, assim como as máscaras, esse pode ser o auge do processo criativo para qualquer artista. É como sonhar com seu amor, os sonhos quase sempre já são coisas que você deseja, almeja ou idealiza.

Mas o fato que considero mais intrigante e poético na série Absence, é que ela é um convite que precisamos fechar os olhos para nos descobrirmos de verdade e, como sonhei com a série, de fato ela foi criada com o ato de fechar os olhos, com os olhos do inconsciente. Na verdade, pelo meu consciente investigando o inconsciente.

Frisson: A série já passou por Londres, Chicago… Onde mais ela foi exibida e como o senhor observou o recebimento? 

Juca Máximo: Tudo começou em Taiwan, no Art Revolution Taipei, fui finalista com as duas primeiras obras da série, assim como no Festival Jackson’s Jopp em Londres. De lá viajei com a Absence III para Chicago e semana passada soube que é uma das finalistas no The Global Art Award de Xangai. Em Taipei vários artistas e outras pessoas que estavam no evento usavam as máscaras para se ausentar, assim foi em Chicago também, foi algo mágico, pois as pessoas se conectavam com a obra e, principalmente, com elas mesmas.

Frisson: Agora um pedaço da série está na CasaCor. Como foi o processo da escolha dos elementos que comporiam essa mostra específica? 

Juca Máximo: Sempre que penso em CasaCor, imagino grandes instalações, acredito que não tem lugar melhor para fazer algo impactante do que lá. Me sinto livre para mostrar o que tenho de melhor. Ano passado instalei 3 obras nos formatos de antenas nos telhados, criando uma geometria triangular que apontava para o nascente, foi a série Connection, que era um convite para nos conectarmos com Deus ou simplesmente com nós mesmos e que poderíamos fazer isso todo dia, em cada nascer do sol.

Esse ano, busquei avançar com as Absences: coloquei duas instalações, cada uma com 1,75x2,5m, e com seus 170kg cada, com grandes lâmpadas. Elas falam da parte mais investigativa do autoconhecimento, que é quando estamos procurando um encontro dentro da gente, no mais íntimo do nosso ser. Buscando o que realmente é nosso de verdade, nossa identidade. E, se tem um lugar que precisamos jogar luz o tempo todo, é dentro de nós mesmos.

Frisson: Observando um pouco seu portfólio, é possível perceber uma preferência pelo corpo humano. Como você o ressignifica em sua arte? 

Juca Máximo: São figurativamente corpos e rostos, mas na verdade são sentimentos. Como expressar o amor? A paixão? O mistério humano? Como representar os sentimentos adormecidos em nosso inconsciente? Como expressar nossa conexão com Deus? Como expressar o sentir de um toque? Como expressar aquele momento em que arrepia todo nosso corpo?

Tenho uma série que uso bastante o vermelho, ela fala das paixões externas, da adrenalina, do sentir o momento. Se você observar, são vermelhos jogados na tela, simbolicamente expressando a paixão de viver o hoje. Figurativamente são rostos, mas ali é o amor, a paixão, o viver o presente, assim como falou o Imperador Marco Aurélio e o Epicteto: “a única coisa que nos pertence é o hoje”.

Frisson: Quais são os elementos e os significados que você procura priorizar como artista? 

Juca Máximo: Meu elemento principal conceitualmente é o que eu chamo de “revelar o verdadeiro sentir”. O que a gente esconde entre tantas camadas de expressões e interações nossas com o mundo? Muitas vezes investigo dentro de mim e outras pessoas, observando, e nossas conexões com esses sentimentos.

Se pegarmos minha série Portrait Colors, que fala do viver o hoje; a Absence, que convida para investigarmos o que nos pertence de verdade dentro do nosso ser; a Skin That I Feel, que é quando encontramos algo que nos pertence e queremos começar a viver. Mas existe uma pele limitadora, temos que criar uma ruptura. Logo depois você tem a série Connection, que é nosso mais elevado estágio da consciência, que é quando vivemos com as conexões mais importantes, com Deus, nós mesmos e com nossas missões para com o mundo e, por fim, a Gravity, que fala da montanha-russa que é sentir tudo isso em vários momentos desde sempre até o sempre, todas elas falam do mesmo elemento, o “revelar o verdadeiro sentir”, o redescobrir a significação de nós mesmos.

Frisson: A solidão, o inconsciente, a descoberta, os fragmentos… Essas ideias aparecem presentes em seu trabalho. Por que essa preferência temática? 

Juca Máximo: Somos moldados, construídos, por tudo à nossa volta, somos partes de um todo. Grande parte da nossa família, um pouco dos nossos vizinhos, amigos, do bairro que moramos, na nossa classe social, das nossas crenças, da nossa localização geográfica.

Tudo isso é a soma de nós mesmos e de nossas interpretações sobre tudo que recebemos. Somos fragmentos do que recebemos de outras pessoas, da cultura, nossas descobertas são baseadas no que temos acesso. Meu trabalho é ajudar, na verdade, meu trabalho é instigar as pessoas a entenderem isso, a investigarem, encontrarem ou simplesmente mostrar que podem procurar e, quem sabe, achar o que são delas de fato. Essa é minha missão, falo isso como artista, como pessoa, é isso que quero deixar para as pessoas. É minha contribuição para o mundo.

Frisson: Como o senhor usa a arte como forma de comunicação? Há uma mensagem que deseja ser passada? 

Juca Máximo: Eu tenho uma frase que deixo sempre escrita na primeira página do meu caderno de ideias que é uma reflexão sobre essa pergunta: “Não importa para mim se o que eu faço é arte ou não. Ela só precisa tocar a alma das pessoas de alguma forma, se não, de que serve?”

A arte tem um grande poder de comunicação. Imagine um diretor de cinema: ele controla o que você vai sentir assistindo ao filme dele. Você vai sair feliz, triste, angustiado ou apaixonado pelo que aconteceu no filme. E você também pode fazer uma ligação do que sentiu no filme com algo que já viveu. Uma música pode ser a trilha da noiva ao entrar no casamento, fazê-la chorar ou simplesmente pode ser uma boa lembrança. A arte em todo seu contexto é algo que pode gerar essas conexões, ela pode fazer seu consciente acender uma luz naquele sentimento guardado no inconsciente, e aí algo extraordinário acontece. Essa é a grande comunicação feita pela arte. É a grande mensagem que a arte deve passar, criar essas conexões.

Frisson: Como é ser artista no Ceará? E no Brasil? 

Juca Máximo: Seria bastante clichê eu falar sobre como é difícil viver de arte no Ceará, no Brasil. De fato, é, mas já andei por vários lugares no mundo, garanto que é tão difícil como na China, nos EUA e na Europa. Claro que incentivos culturais são bem mais escassos aqui e, quando temos, são valores bem baixos, principalmente nos últimos anos. Mas também não são tão fáceis de ganhar lá fora. Hoje eu vivo de arte, ela mantém minha família. Por isso, não posso ser ingrato com a arte local, mas com toda certeza, a arte é um negócio. Você precisa encarar como uma empresa, tem que saber como investir, como articular bons negócios, como vendê-la, tudo isso vai fazer a diferença para você ter algum sucesso ou não.

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