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"Quando a fofoca estupra a liberdade de imprensa", por Ricardo Feltrin


Foto: Reprodução

Nesta coluna para o Frisson Online quero dar um depoimento profissional: eu já publiquei fofoca. Em 1997, quando troquei o jornalismo político pelo de TV e celebridades (que pagava mais e eu trabalhava menos), comecei num jornal popular de São Paulo.

Por ser um jornal destinado à classe média baixa ("Folha da Tarde") escrever fofocas era algo obrigatório. 

Publiquei casos de chiliques de apresentadores de locais públicos; de pagodeiros que atrasaram pensão de filhos pequenos; de famoso que levou chifre ou chifrou; e outros casos comezinhos –porém que davam uma enorme audiência (e, por incrível que pareça, prestígio ao jornal).

Quando migrei para a internet, em 2000, estreei a coluna (Ooops!, na Folha.com) que também publicava fofocas. A diferença entre mim e os fofoqueiros atuais é que eu procurava sempre escrever com humor e deboche.

Eu, que vinha da fria cobertura política, nunca levei a sério o "jornalismo de entretenimento", embora escrevesse com os fundamentos do jornalismo responsável: ouvia os envolvidos, questionava, apurava.

Mas, de qualquer forma, eu sempre ironizava o assunto.

Como a coluna Ooops! se tornou um enorme sucesso (foi a coluna mais lida da internet brasileira por seis anos, 2000-2006; e não é cabotinismo, tenho provas), pela primeira vez comecei a sentir física e emocionalmente o efeito que essas publicações me causavam.

Isso não acontecia no jornal impresso. A gente não via no papel a reação imediata de nada que era publicado.

Na internet, não. De cara eu percebia que, se por um lado essas notas causavam (sem trocadilho) frisson na internet, por outro elas me faziam mal emocionalmente. E nem o deboche diminuía essa sensação.

Em 2006 cheguei ao colapso físico e mental. 

Não aguentava mais acumular o cargo de editor-chefe da Folha.com e ainda escrever uma coluna semanal imensa, ainda por cima com uma pressão descontrolada dos leitores. 

Vejam só, eu tinha realizado o sonho de todo jornalista: ser o melhor da minha área, ser copiado, repercutido e ter milhões de seguidores semanais.

Só que o sonho veio com um pesadelo embutido: internautas passaram a se comportar como capatazes, exigindo cada vez mais e mais fofocas; e muitos até me ofendendo quando em alguma semana eu dava outro rumo à coluna, que não o "gossip".

O que percebi é que aqueles leitores-capatazes (e eram muitos, acreditem) eram como vampiros da vida alheia, sedentos por futricas e intimidades. Quanto mais podre, melhor.

Cansei.

A partir desse dia nunca mais publiquei assuntos íntimos de famosos, exceto em casos relevantes e que afetem a vida de outras pessoas ou o desempenho profissional.

Escrevi toda essa autobiografia para chegar ao caso Klara Castanho, que teve sua intimidade, sua vida privada e sua honra literalmente estupradas na semana passada. 

Além do estupro físico que sofreu e suportou calada, além dos maus-tratos que recebeu de profissionais da saúde que "cuidaram" (sic) dela, Klara ainda foi violentada uma terceira vez: por profissionais e veículos de comunicação que não dão a menor importância para a vida alheia.

Estão interessados apenas em cliques e na remuneração que isso representa. Quanto mais cliques, mais o Google paga em publicidade.

A pior doença que a internet produziu foi remunerar a exposição da vida dos outros e as informações distorcidas ou mesmo mentirosas. Nada como produzir lixo e ainda ser pago por isso.

Dessa vez, a fofoca saiu pela culatra, pois seus autores foram cancelados e massacrados por seus próprios leitores. A indignação tomou conta do país por uma semana.

Uma indignação também um tanto hipócrita, pois se existe esse tipo de "notícia" porque muita gente a consome, certo?

Neste momento, o assunto já esfriou e em breve ninguém mais vai se lembrar do que essa jovem atriz sofreu. Não houve punidos ou punições.

Também não acredito que, se a atriz mover processos judiciais contra os envolvidos em sua exposição íntima, ela se sentirá melhor. 

O pior de tudo isso é que tenho certeza que ninguém vai aprender lição alguma com esse "estupro jornalístico" de um ser humano indefeso. 

Vai acontecer de novo.

Por Ricardo Feltrin
@feltrinoficial

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