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Gravidez precoce: uma questão de classe, condições de gênero e vulnerabilidade social

A gravidez na adolescência, também chamada de gravidez precoce, é uma situação que mexe com a vida da menina, da família e toda a estrutura da sociedade

Foto: Divulgação Assembleia

Uma mistura de coragem e medo. A sensação de que a vida irá, de alguma forma, virar de cabeça para baixo. A visão um pouco nebulosa do futuro e o sentimento de dúvida sobre todas as certezas que antes eram pelo menos quase garantidas. 

A gravidez na adolescência, também chamada de gravidez precoce, é uma situação que mexe com a vida da menina, da família e toda a estrutura da sociedade. Colocadas diante uma situação vista como um sinal de amadurecimento, as meninas que engravidam “cedo”, antes dos 18 anos, costumam a ser obrigadas a crescer precocemente, tendo que assumir novas responsabilidades e, muitas vezes, criando mudanças na rotina do crescimento. 

De meninas que se preocupavam com escola, amigos, paixões e outras questões mais comuns à idade, a mulheres com uma nova vida para alimentar, cuidar e, claro, para amar. O crescimento das meninas que passaram por gravidez precoce é quase obrigatório. Precisam amadurecer, crescer e estar prontas para tomar de conta da nova vida que forma dentro de si. 

O Brasil é o país “campeão” da América Latina em gravidez na adolescência - também chamada de “gravidez precoce”. Enquanto a taxa mundial era de 46,6 para cada mil jovens e a taxa da América Latina era de 65,5, o índice brasileiro chega a 68,4 nascimentos a cada mil adolescentes. Os dados são da Unicef e do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e dizem respeito ao ano de 2018. 

Já em números específicos do Ceará, um levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicou que 113.081 meninas tiveram filhos com menos de 18 anos no Estado entre 2009 e 2019. Já a Secretaria da Saúde do Estado (Sesa) registrou, em 2020, 20,3 casos de gravidez entre adolescentes de 15 a 19 anos a cada mil habitantes. Também segundo a Sesa, 16.189 bebês nasceram vivos de mães adolescentes no ano de 2020.

A gravidez precoce, segundo a psicóloga e coordenadora do curso de Psicologia da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Layza Castelo, é como uma espécie de “desorganização”, visto que não só contribui com a desigualdade social, como também é causada por ela. Abandonando os estudos e tendo que se submeter a subempregos para conseguir manter uma nova vida dentro de casa, as adolescentes são assim impedidas pela condição de conseguir ressignificar suas condições sociais. Segundo um levantamento realizado pela Unicef, 75% das mães adolescentes abandonam a escola.

“A mãe vai ter mudanças na sua vida, nas relações e na sua forma de ser e estar no mundo O que acontece é que normalmente a adolescente não está esperando por essas mudanças. Geralmente há essas surpresas, há um impacto de ser algo inesperado. Já em uma mulher adulta, essas mudanças vão trazer menos impacto porque são mudanças esperadas. No caso da adolescente, essas mudanças vão causar medo, angústia, para algumas, tristeza, um medo do futuro. E quando o bebê nasce, essas mudanças deixam de estar no campo da fantasia e acabam sendo efetivadas”, ressalta Layza, destacando que, mesmo com essas mudanças, a ligação entre a mãe e o bebê também é muito forte. 

 Layza Castelo é coordenadora de Psicologia da Uece

Os dados sobre as condições sociais são ainda reforçados em estudo realizado na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP), realizado em 2019. De acordo com os resultados, foi observado que mulheres que engravidaram na adolescência tendem a ganhar 30% menos. 

O estudo, intitulado “Examining the Impact of Early Childbearing on Labor Market Outcomes”, financiado pela organização sem fins lucrativos Partnership for Economic Policy (PEP), indica ainda que há uma queda de 1,3 ano na escolaridade em mulheres que tiveram filhos antes dos 20 anos. Essa saída da escola é também diretamente influenciada pela condição social, visto que “e um adolescente não esperava ganhar muito com a escola e pensamento ela não se sairia bem no mercado de trabalho remunerado, então, sair da escola cedo pode não pareceu ser uma grande perda”, é o que analisa o estudo.

Lidando diariamente com a situação, a chefe da Unidade de Atenção à Saúde da Criança e do Adolescente da Maternidade Escola Assis Chateaubriand, Dra. Maria Tereza Dias, ressalta que essa situação de vulnerabilidade tendeainda a ser um ciclo vicioso. “A tendência é que viva uma situação de dependência econômica do parceiro ou da família. O ciclo vicioso da pobreza se mantém e, até pela baixa escolaridade, também terá dificuldades de educar seus filhos. Um estudo realizado em 2017, mostrou que 55,4% das mães de jovens assassinados  em Fortaleza foram mães adolescentes, mostrando a grande vulnerabilidade social dessas famílias”. 

Mas por que tão precoce?

Segundo a assistente social e mestranda no Mestrado Acadêmico de Serviço Social (Mass), da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Maria de Lourdes Zaranza, também chamada de Malu, não se pode separar a gravidez precoce da questão de classe e das condições de gênero. Pesquisadora no assunto, Malu indica que um dos principais motivos que fazem com que meninas engravidem antes de uma idade mais madura se relaciona com a desinformação na educação sexual - que é muito mais frequente com mulheres.  

“Quando a gente fala da causa de um problema, ainda é muito pertinente falar sobre a desinformação juvenil, dificuldade de acesso aos métodos, a pobreza e a situação de marginalidade social. Porque a sociedade fala que hoje em dia se tem muita informação, mas em partes. Você não tem ainda uma estrutura de educação sexual sólida nas escolas. Existem bloqueios e tabus dentro das próprias famílias, exposição a um ambiente de sexualidade precoce sem uma prévia orientação, e tudo isso influi numa gravidez precoce”, destaca a pesquisadora. 

O tema da informação é um dos principais motes da Semana Nacional de Prevenção da Gravidez na Adolescência, instituída nacionalmente pela Lei nº 13.798/2.019. A semana, que ocorre anualmente no período que abranger o dia 1º de fevereiro, pretende trazer à tona dados sobre a gravidez, como também difundir os assuntos relacionados à gravidez precoce. 

Segundo dados da Semana Nacional, a taxa de gestação na adolescência no Brasil é de cerca 400 mil casos ao ano. Em 2014 nasceram 28.244 filhos de meninas entre 10 e 14 anos e 534.364 crianças de mães com idade entre 15 e 19 anos.

“A gravidez precoce enquanto problema social é mais evidente nas camadas em maior situação de vulnerabilidade social, porque muda de forma significativa o curso de vida do adolescente, porque não existe uma estrutura familiar - no sentido principalmente financeiro - para abraçar aquela situação, recaindo no colo da jovem e da criança. A chegada de um filho já é um divisor de águas quando não adolescente e quando não há segurança financeira”.

Segurança e saúde

Além de ser, em si, uma questão de saúde, a Semana Nacional ainda pretende difundir indicadores que aumentam os riscos da gestação na adolescência, como gestação decorrente de abuso, presença de doenças crônicas e ainda a ocorrência da primeira menstruação há menos de 2 anos. 

Segundo a ginecologista Nathalia Posso, além das questões sociais, é necessário também analisar a questão de saúde. Frágeis e muitas vezes com dificuldades no pré-natal, a jovem precisa, entre diversos outros cuidados de saúde, de uma grande carga de apoio emocional. “A gravidez na adolescência pode trazer inúmeros riscos para mãe e bebê. Na maioria das vezes, a gravidez nessa idade ocorre sem  planejamento, estando a jovem com a saúde debilitada. Diante disso, os riscos de desenvolver complicações como pré-eclâmpsia, dificuldades no parto normal pela desproporção do tamanho do feto e da pelve jovem, fetos com baixo peso, além de óbito materno e fetal em casos mais graves”, indicou a médica, destacando que algumas adolescentes chegam inclusive a pensar em alguma forma de aborto para a questão. 

Violência obstétrica

Mais vulneráveis e com menos informações, as adolescentes estão sujeitas a também serem vítimas de violência obstétrica. Ainda segundo a assistente social Malu, as pessoas mais expostas a situações de violência são mulheres em situação de vulnerabilidade social, majoritariamente mulheres negras e muitas com níveis menores de educação. 

Segundo o Ministério da Saúde, a violência obstétrica é a que ocorre desde a gestação até o pós-parto, podendo ser física, psicológica, verbal, simbólica ou sexual, podendo também conter negligência, discriminação ou condutas excessivas ou desnecessárias ou ainda desaconselhadas. A prática submete a mulher a normas ou rotinas rígidas e muitas vezes desnecessárias, de forma a não respeitar o protagonismo da mulher no momento da gestação e não respeitar o limite de seus corpos ou seus ritmos naturais. 

Da mesma forma que a educação sexual se faz presente para evitar a gravidez precoce, também é necessária para impedir a violência. “Muitas mulheres que no período da gravidez, quando têm acesso à informação, conseguem se munir. É preciso muito estudo e conhecimento para não viver situações de violência obstétrica no Brasil. É um dado muito real e presente. Quando se não tem esse acesso à informação, acesso da possibilidade de boas práticas de assistência à mulher na hora do parto, de que existem ações que são violência…”, destaca Malu, indicando que até a decisão do tipo do parto - seja ele normal ou cesária - quando não há indicação médica, deve ser uma escolha da futura mãe. 

Mulheres protagonistas

A pesquisadora Malu, de 26 anos, é uma das vozes que podem falar de gravidez precoce a partir da própria experiência. A assistente  social ficou grávida aos 17 anos, no final do Ensino Médio, de um namoro de longa data. Apesar de seu desejo de ser mãe, ainda sim o momento, desde a descoberta da gestação até a adaptação com a nova criança, se caracterizou como uma “pertubação”. 

Ela ainda ressalta que, por estudar em uma escola para freiras, o assunto era um tabu, tanto no âmbito estudantil quanto na própria família. 

“Foi uma vivência muito intensa. Não foi uma gravidez planejada. Depois de tudo que eu falei da gravidez antes dos 19 na nossa sociedade ser uma perturbação à trajetória juvenil, a minha não fugiu à regra. Inicialmente foi todo um processo de adaptação de usar todos os planos que tinha feito, se reorganizar. Eu sempre quis ser mãe, mas claro que eu não queria ser mãe nessa circunstância”. 

Com apoio dos pais e sem precisar abandonar os estudos, Malu teve uma trajetória diferente que as estatísticas, conseguindo fazer o vestibular e ainda cursar o primeiro semestre de Serviço Social na Uece antes de dar à luz. Mas mesmo trancando a faculdade por um semestre, a pesquisadora ainda conseguiu retornar ao curso seis meses depois. 

Entretanto, Malu ressalta que, da mesma forma que vem analisando em sua pesquisa, passou por uma situação de violência, transformando o momento do parto em uma experiência não tão boa, tirando seu protagonismo e seu poder de escolha. 

“Eu passei por uma cesárea eletiva, que é uma cesárea sem real indicação. Eu senti na pele uma experiência muito mecânica, muito fria, distante. Eu não pude pegar minha filha no colo quando ela nasceu. Não teve o que se chama de hora de ouro, que é quando ela veio mamar. Quando eu peguei ela nos braços, já estava banhada, com brinco na orelha, arrumada. E isso influenciou na descida do leite, que demorou mais, na adaptação daquele bebê recém nascido. Eu sinto que o parto não foi um portal para a chegada dela nos meus braços”.

Apesar da experiência, Malu fala com certeza: não mudaria o passado no que diz respeito ao seu filho. A única diferença que gostaria seria sobre o momento do parto. “Tentaria um parto normal”. 

A história de Malu tem similaridades com a de Suiane Sousa, apesar de se diferenciar em diferentes aspectos. Suiane, de 22 anos, conheceu o pai de seu filho, o pequeno Francisco William, de 6 anos, através de umas amigas. Ela tinha 13 anos na época e o namorado tinha 17. Pela idade e falta de aproximação com o pai por parte de Suiane, o namoro seguiu escondido, mas logo foi descoberto pela família de Suiane. 

“Eu estudava pela manhã e queria ter mais intimidade com ele, então pedi para ele ir pra minha casa antes de eu ir pra escola. Era seis e meia da manhã, mas meu tio viu ele entrando aqui em casa e ligou pra minha avó, que mora do lado. Minha avó veio aqui. A gente apenas estava conversando, nada de relações, mas aí de imediato eu fiquei com muito medo. Acabei pegando todas as minhas coisas e decidi fugir com ele. Mas em 5 e 6 horas eu voltei”, explica, indicando que o momento fez com que as famílias conversassem, decidindo por deixar o relacionamento continuar.

Pouco menos de um ano de relacionamento, Suiane indica que, apaixonada, passou pela cabeça ter um filho com o namorado. ”Foi planejado da minha parte. Coisa de adolescente nova, inexperiente, que pensava que tendo um filho com um rapaz, iria ficar com ele pra sempre”. 

“Engravidei em 2014, na época do Carnaval. Eu já vinha sentindo algumas coisas e me passava pela cabeça. Os meus familiares disseram que eu estava mais inchada. A minha menstruação não veio… E eu fiquei pensando: e agora? Eu tinha 14 anos e contei pra ele. Num certo momento, eu e ele sentamos no meu quarto e ele chamou a minha mãe, mas eu não consegui falar. Eu estava com medo, aí ele acabou falando. De imediato, minha mãe se desesperou, começou a chorar. Eu não consegui abrir a minha boca”. 

Ainda estudando e sem a perspectiva de abandonar a escola, Suiane indica que, apesar da proximidade com sua mãe, sua reação foi primeiramente mais explosiva, enquanto a reação primária de seu pai foi mais tranquila. Entretanto, a situação mudou. “Eu cheguei em casa, ajeitei meu quarto e me deitei na cama. Quando meus pais chegaram do trabalho, meu pai teve aquela explosão. Exigiu que eu saísse de casa, que eu fosse morar com ele e foi outra confusão. Peguei minha mochila, comecei a colocar minhas coisas dentro, arrumei tudo e liguei pro meu namorado. Passei a gravidez toda mais com a família do meu ex que com a minha”. 

Francisco William nasceu no dia 21 de outubro de 2014 por cesárea. Suiane não teve de abandonar a escola e atualmente cursa Administração na Uniateneu. Apesar do filho, Suiane e seu namorado se separaram poucos meses depois. A série de acontecimentos fez com que desenvolvesse crises de ansiedade e crises de choro até o momento atual, controlando o nervosismo com remédios controlados. 

“Eu segui minha vida, ele seguiu a dele. Hoje ele é casado, tem uma filha. Hoje eu tô noiva, to construindo minha vida, minha casa, batalhando para dar o que minha mãe me deu pra eu ter pro meu filho”.

 

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