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Nova desembargadora do TJCE, Joriza Magalhães conta trajetória e fala sobre igualdade de gênero

Confira a entrevista, veiculada no último 3 de março no canal de Youtube do GCMais

Foto: João Filho/O POVO

Em entrevista para o jornalista Alexandre Medeiros para o programa JC Entrevistas, a nova desembargadora do Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE) foi empossada no último 18 de fevereiro, sendo a 16ª mulher da história do Estado a assumir o cargo. Seguindo passos de inspiração da sua mãe, a desembargadora aposentada Mariza Magalhães Pinheiro, Joriza contou um pouco de como iniciou seu sonho de seguir a carreira jurídica.

Graduada e mestre em Direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC), a desembargadora defende a igualdade e pretende servir de inspiração para mulheres que desejam ocupar tais espaços. Ainda, compartilhou um pouco com o programa sobre suas metas no novo cargo. 

Confira a entrevista, veiculada no último 3 de março no canal de Youtube do GCMais:

Alexandre Medeiros: Sempre foi o sonho da senhora chegar onde chegou? E os outros jovens, principalmente as outras mulheres que sonham com isso, devem alimentar esse sonho cada vez mais, por que realmente é possível?

Joriza Magalhães: Sim. Penso que é ótimo sonhar, mas a gente tem que acreditar no sonho. E acreditar é fazer com que aquele sonho se realize, é construir. Eu sempre quis ser do magistrado. Quando eu era criança, a minha mãe era juíza, aí perguntavam para mim o que eu queria ser e eu dizia que não sabia. E o que eu não queria ser, e eu dizia juíza (risos), porque abandonava os filhos. Na época, ela tinha que trabalhar no interior. Como todo juiz estadual, a sua carreira começa no interior. E aí, quando a gente completava seis anos, ela nos deixava em Fortaleza para a gente estudar, e eu me senti, na época, abandonada. Lógico que eu compreendi perfeitamente a situação. E quando eu cresci, aquele exemplo dela de profissional. Uma mulher exercendo uma profissão típica de homem… E ela entrou e saiu com toda a dignidade possível, ela sempre foi uma inspiração para mim. Então eu sempre quis ser magistrada e estudei, e me sinto realizada nesta profissão.

Alexandre Medeiros: Quando a gente fala que a mãe da senhora foi juíza e foi desembargadora, muitas pessoas podem pensar que é algo de família, que se eu não tenho essa história, pode ser algo muito difícil. Mas é justamente o contrário que a senhora quer mostrar. É um sonho alcançado por qualquer pessoa que busque, se dedique e tente realizar esse sonho. 

Joriza Magalhães: Exatamente. Você tem que ter planos. Eu tenho agenda desde os 17 anos, porque eu gosto de planejar. Eu penso no resultado, mas eu não me apego àquele resultado. Eu vou caminhando e fazendo o que é necessário para o que eu busco, e nesse caminho eu me realizo. Eu sou feliz, não fico buscando uma realização só no fim, eu gosto do trabalho, do dia a dia. Eu penso que o que as pessoas precisam não é só sonhar. A gente tem que sonhar, tem que ver como realizar aquele sonho e ir construindo o que está ao seu alcance, por tem coisa que não depende da gente também. 

Alexandre Medeiros: Vamos falar sobre esse processo de tornar-se desembargadora. Como Acontece a seleção, como alguém que chega ao magistrado pode tornar-se desembargador. É um processo que envolve os méritos, a busca, a capacidade da pessoa para exercer a função…?

Joriza Magalhães: Só explicando que quando você passa para o concurso de juiz, você vai para uma comarca pequena no interior do Estado, e você vai sendo promovido até chegar na entrância final. Não é só Fortaleza, envolve outras comarcas, como Sobral, Juazeiro, Iguatu… Mas só quem pode concorrer ao cargo de desembargador é quem tá na entrância final e que ocupa o primeiro quinto na antiguidade. Ai, atualmente, é em torno de 50 pessoas. Dessas 50, 22 se inscreveram para essa vaga e eu tive a felicidade de obter o primeiro lugar dessa avaliação por mérito, que avalia produtividade, desempenho, que é qualidade das decisões, avalia a capacitação, os cursos que você tem e vários outros requisitos. É uma avaliação objetiva que tem nota. E eu fiquei mais feliz ainda porque, além do meu pessoal, eu fui acompanhada por outras colegas que ficaram nas melhores profissões nessa avaliação objetiva que trata exatamente do mérito.

Nestas cinco primeiras posições, eram cinco mulheres, é até histórico para a história do Ceará. É histórico. Penso que o Tribunal de Justiça está caminhando a passos largos na igualdade de gênero. 

Alexandre Medeiros: É importante que essa igualdade de gênero aconteça na Justiça, em todos os setores, porque é uma questão de igualdade para nossa sociedade. Temos que ter igualdade entre homens e mulheres e o exemplo do TJCE é um exemplo que deve ser replicado por outros estados, não por uma simples necessidade de replicar, mas porque a gente tem que buscar cada vez mais e entender a importância da mulher em todos os setores. 

Joriza Magalhães: Eu sou a 16ª atualmente, corresponde a cerca de 37%, então ainda temos um caminho. Mas de toda forma, o TJ, no âmbito do Nordeste, é uma das melhores posições nessa aproximação entre homens e mulheres. A alegria não é que são mulheres, mas porque elas estão ali por mérito. A pontuação é em torno da vida profissional, então é importante inspirar outras mulheres porque elas podem ocupar os espaços que quiserem, e em qualquer profissão, e serem reconhecidas como boas profissionais. 

Alexandre Medeiros: Na sua trajetória, você chegou a atuar no TRE. A gente está em um ano eleitoral, também estamos vivendo um período politicamente muito acirrado. Qual a importância da gente ter um judiciário forte, coeso, em um período como esse?

Joriza Magalhães: O juiz não é eleito e nem deve ser aprovado por concurso. Ele é um agente do estado. E é importante que ele tenha independência para julgar. Não é que ele não esteja observando o que acontece, mas que ele não tenha nenhum vínculo com quer que seja. Que ele seja imparcial naquele julgamento. É forte nesse sentido, que é respeitado pela independência, imparcialidade, que vai proferir o melhor julgamento independentemente das partes envolvidas.

Alexandre Medeiros: Quais são os principais desafios que a senhora acha que o Judiciário cearense precisa vencer para que a gente se torne um Estado cada vez mais justo, com julgamentos mais céleres, com um judiciário fortalecido?

Joriza Magalhães: O mais importante é acompanhar o tempo. E isso está sendo realizado. O foco nesta gestão é na tecnologia, mas com humanismo e comunidade A sociedade está em permanente mudança. Os meios tecnológicos estão aí e devem ser utilizados para aumentar essa produtividade, mas nunca esquecer, que é o lema da presidente Nailde, nunca esquecer do humano. Todo o esforço no serviço público tem que visar o ser humano. Aquela pessoa a quem o serviço é destinado. E no caso do Judiciário é o jurisdicionado. É um esforço permanente de continuar sendo uma instituição que a sociedade acredita e que pode contribuir na solução dos conflitos. 

Alexandre Medeiros: O Judiciário já vinha passando por um processo de modernização, audiência à distância, remotos, mas a pandemia veio para impor praticamente isso sobre todos os setores, empresas.. Esse período que a gente viveu veio para mostrar que é possível se utilizar dos meios remotos para acelerar processos, realizar audiências a distância, modernizar o judiciário…

Joriza Magalhães: Eu penso que tudo isso que poderia acontecer em 20 anos aconteceu em dois. Foi uma revolução e as pessoas tiveram que se reinventar, aprender muita coisa nova, a trabalhar de uma forma diferente… Mas eu penso que a gente vai caminhar para um meio termo, porque não é mais como era antes, aquela coisa totalmente presencial, mas também não pode ser totalmente remoto, porque as pessoas precisam desse olhar próximo, do contato… Eu penso que as pessoas, em geral precisam do contato humano para poder serem felizes.

Alexandre Medeiros: Se a senhora pudesse escolher três palavras para ficarem sobre sua mesa ou colocar na parede para nortear seus passos como desembargadora, e que sirvam de inspiração para outras pessoas que entrem na sua sala e vejam, quais seriam?

Joriza Magalhães: Coragem, justiça e amor. É o que seria o meu dia a dia e o que eu procuro todo dia olhar. Tantas coisas que a gente precisa cuidar, mas nesse esforço permanente de melhorar, evoluir, de ser um ser humano melhor para si mesmo e também para servir melhor aos outros. 

Alexandre Medeiros: Qual a mensagem que a senhora deixa para os jovens que estão ingressando agora. Sabemos que há uma demanda muito grande de novos advogados… Qual a mensagem que você deixa para eles, principalmente para essas mulheres que buscam, sonham e lutam para alcançar seus objetivos?

Joriza Magalhães: Na área jurídica, são muitas carreiras, e às vezes as pessoas só pensam no concurso público, porque querem uma estabilidade melhor. Mas a mensagem que eu quero dar é que você deve sempre pensar no que vai lhe dar felicidade e no que você vai realizar com amor. Porque a gente passa a maior parte do tempo no trabalho, então a gente tem que gostar. Não pode ser baseado só na remuneração. Lógico que é importante, mas a gente não pode se basear só nessas coisas, tem que ver o que você pode realizar de forma que isso te realize e te dê satisfação. E tenha paciência. Ninguém consegue nada de um dia para o outro. Isso é uma caminhada e por isso que tem que fazer gostando do que faz, porque aí a caminhada fica leve e você pode ser melhor, se superar, porque você faz com amor. Por isso eu escolhi essa palavra entre as três que estão na minha mente.

 

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