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Com participação marcada para exposição no RJ, Elinaudo Barbosa conta histórias por meio da arte

Atualmente, assinando duas peças na nova exposição da Galeria do Shopping Benfica, o artista já adianta que as peças da série já tem um novo destino: o Rio de Janeiro

Foto: Lino Vieira

De copiar desenhos de revistas a assinar obras em exposições, a trajetória do artista cearense Elinaudo Barbosa é marcada pela experimentação de linguagens. Autodidata, o artista teve seus primeiros contatos com a arte ainda cedo, com seis anos, e desde então percebeu na arte uma forma de narrativa, seja para seus estudos na escola, seja para contar histórias.

Atualmente, assinando duas peças na nova exposição da Galeria do Shopping Benfica, o artista já adianta que as peças da série já tem um novo destino: o Rio de Janeiro. 

Elinaudo conversou com a Frisson sobre sua trajetória e aspirações como artista. Confira a entrevista: 

Frisson: Pode relembrar como você teve seus primeiros contatos com a arte? 

Elinaudo Barbosa: Eu era bem pequeno, por volta dos 6, 7 anos, naquela fase onde se diz que toda criança desenha. Na localidade em que eu morava não tinha escola e meu pai contratou algumas professoras que foram se revezando em me ensinar o equivalente aos primeiros anos escolares. Uma delas percebeu meu interesse pelo desenho e passou a usar isso como incentivo para eu fazer as lições. Acredito que isso tenha sido o estímulo inicial para que eu seguisse pelo mundo das artes.

Frisson: Você foi criado em Caridade, onde treinava copiando as revistinhas da Disney, à luz de lamparina. Pode falar mais do seu processo de crescimento na área?

Elinaudo Barbosa: Durante o dia eu me dividia entre ajudar na lida da casa e estudar. Depois das professoras em casa, passei a ir a uma escola distante quatro quilômetros, eu ia e voltava de bicicleta. O tempo que sobrava para desenhar era à noitinha, entre o jantar e a hora de dormir, à luz da lamparina, sobre o móvel da máquina de costura Singer da minha mãe. Em algum momento me ensinaram que se eu umedecesse o papel com querosene (o mesmo da lamparina), ele ficava meio transparente e eu podia copiar os desenhos das revistinhas como se fosse um papel vegetal. Portanto, nesses primeiros anos eu era um desenhista movido a querosene (risos). Copiava a lápis com o papel úmido e depois que secava, finalizava com caneta e coloria com lápis de cor. Eu nunca copiava o quadrinho completo, partes das cenas e dos cenários e ia montando minha própria história. 

Com o tempo passei a desenhar sem copiar por cima e nos anos seguintes busquei aprender bastante sobre desenho, estudando formas, perspectiva, anatomia, luz e sombra, cores etc. Sempre como autodidata, que sou até hoje.

Frisson: Quando percebeu que a arte poderia virar sua profissão? 

Elinaudo Barbosa: No começo eu queria ser desenhista de quadrinhos, trabalhando para a Disney ou para alguma das editoras de super-heróis. Depois, já morando em Fortaleza, vieram outras percepções a partir dos primeiros trabalhos que foram surgindo, um deles era pintar o emblema das escolinhas da vizinhança nos bolsos dos fardamentos dos alunos. Também fazia cartazes e desenhos por encomenda. Foi aí que comecei a receber meus primeiros ganhos como artista. Nessa época, período de adolescência, eu passei a atuar em causas e movimentos sociais na região do Grande Bom Jardim e sempre fazia alguma arte para cartazes dos eventos ou pintava painéis temporários na escola onde estudava. Foi nesse período que tive contato com o jornal O Povo, através do jornalista Ivonilo Praciano. Ele viu um cartaz que tinha feito com Carmen Miranda com roupa e adereços de materiais reciclados, gostou da arte e me convidou pra fazer a capa do suplemento que o jornal publicou sobre o Bom Jardim. Após isso ele me apresentou ao Roberto Santos, então editor de arte, e fui convidado para fazer um estágio lá como ilustrador. Isso era final de 1994, em 95 fui contratado e passei a ser um ilustrador profissional.

Frisson: Você é desenhista, ilustrador, autor de histórias em quadrinhos… Pode falar um pouco sobre as linguagens que você usa? 

Elinaudo Barbosa: Eu uso as linguagens artísticas para contar histórias. Minha cabeça é um multiverso particular de onde sai desde um universo inteiro de super-heróis em quadrinhos até uma série de figuras humanas com asas de borboletas multicoloridas, da minha série de pinturas “Borboletas”. Quando eu pinto um quadro, na minha cabeça há todo um contexto no qual  se encontra aquela cena, quando eu crio uma ilustração para um livro ou para uma página de jornal, também há uma história, um universo por trás daquela cena. Para contar essas histórias e dar ao público vislumbres desse multiverso, uso o desenho, a ilustração, a pintura em tela, desenhos e pinturas digitais e as histórias em quadrinhos. Nestas, eu faço tudo: enredo, roteiro, desenho, arte-final e cores.

Minhas artes, mesmo as pinturas, são sempre figurativas. Sempre vai ter olhos, caras, expressões e algo acontecendo, como se fosse um quadro de um filme. E costumeiramente aparecem gatos nas minhas obras, mesmo que figurando em algum lugar da cena.

Frisson: Você já passou pelo jornal O Povo como ilustrador. Que outras empresas já trabalhou como artista? 

Elinaudo Barbosa: Com vínculo formal foi só o O Povo, mas já ilustrei como freelancer para editoras como a Fundação Demócrito Rocha, IPDH e editora do Senac, dentre outras, além de ilustrações para publicações independentes. Além da ilustração propriamente dita, trabalhei muito com infografia e também com design de marcas e artes para divulgação e propaganda, como cartazes, banners, artes para internet etc. 

Frisson: Quais foram as dificuldades do mercado durante a pandemia? 

Elinaudo Barbosa: Como eu já trabalho em casa há alguns anos, a pandemia em si não afetou tanto o meu mercado. O que me atingiu mesmo, em cheio, foi a perda do meu pai para a Covid no início deste ano. Tive uns meses afastado principalmente das pinturas, por conta do luto e só agora no segundo semestre é que retomei a produção dos meus quadros. Nesse ínterim, o mercado desaqueceu um pouco. Agora estou plenamente de volta à ativa e contando com esse movimento de retomada das atividades e da economia para voltar aos parâmetros anteriores à pandemia.

Frisson: Quais soluções ou inovações você utilizou para conseguir driblar esse momento? 

Elinaudo Barbosa: Tenho utilizado ainda mais as redes sociais para divulgar minha produção artística e as reuniões e conversas com clientes, parceiros e amigos têm sido, nesse período, por meio  de videoconferência. Isso foi a principal mudança, pois gosto das conversas olho no olho, das interações presenciais e tive que me adaptar às conversas por vídeo.

Frisson: Além do entretenimento em geral, qual foi o papel da arte na pandemia? 

Elinaudo Barbosa: A arte traz cores para esse período tão cinza, traz alegria para uma fase na qual tantas pessoas ficaram tristes. Quando meu pai faleceu eu não conseguia pintar. Meus quadros são muito coloridos e alegres e eu não tinha conexão com aquela alegria. Mas quando consegui voltar, as cores me devolveram a alegria para seguir com a vida. Agora me considero com a missão de levar essas cores e essa alegria para o máximo de pessoas possível. As cores não encobrem a realidade mas alegram e dão energia para superar as dificuldades e criarmos uma vida melhor.

Frisson: Você utiliza de imagens conhecidas, como a Mulher Rendeira, como inspiração. Que outras figuras estão presentes na sua arte? 

Elinaudo Barbosa: Uma características minhas artes são os gatos, eu estou sempre desenhando ou pintando felinos, mesmo que sejam para figurar em algum cantinho da cena. Na pintura estou numa fase de mostrar esse imaginário do sertão, como vaqueiro, rendeira, as paisagens da caatinga. Mas antes vinha pintando uma série chamada Borboletas, na qual pintei uma vênus no espelho com asas de borboleta e a Iracema Guardiã, do Zenon Barreto, também com asas multicoloridas.

Frisson: Quais artistas você se inspira na sua trajetória?

Elinaudo Barbosa: Como autodidata que sou, encontro referência em tudo o que vejo, de histórias em quadrinhos à arte renascentista, passando pela arquitetura, artesanato, arte primitivista e até design gráfico e pop-art. Lá no começo, minhas inspirações foram os mestres dos quadrinhos, como Carl Barks, Don Rosa, Will Eisner, Jack Kirby. Depois vieram os mestres da pintura e artes plásticas em geral, como Picasso, Da Vinci,Van Gogh, Tarsila do Amaral e Aldemir Martins.

Meu estilo atual, característico das minhas telas e também de desenhos e gravuras digitais, eu comecei a desenvolver lá pelos anos 1990 e uma das minhas principais influências foi o cearense Audifax Rios. Embora haja uma comparação natural do meu estilo com o do Romero Britto, eu só me detive mais na obra dele quando já tinha criado o estilo e os amigos começaram a achar semelhante. Aliás, tenho uma admiração pela trajetória dele e pela forma como disseminou e tornou acessível sua arte aplicando-a em produtos. Também acompanho e admiro o trabalho dos Gêmeos, que assim como eu têm um universo próprio cujas histórias são contadas em suas artes a quatro mãos.

Frisson: Qual a previsão de trabalhos e exposições para 2022? 

Elinaudo Barbosa: Uma coisa que quero fazer ano que vem, nessa retomada gradual do contato humano, é pintar ao vivo, diante do público. Quero tornar a arte mais acessível, mais próxima das pessoas e com isso quem sabe até inspirar outros artistas em potencial a pôr em prática os seus dons. Para isso estou investindo na busca de parcerias para viabilizar live paintings, que é o ato de pintar ao vivo num evento, ou mesmo criando um happening que permita ao público interagir melhor com a produção das obras de arte. Quero fazer isso em espaços públicos e monumentos que fiquem dentro e fora do chamado circuito turístico de Fortaleza e do Estado. A ideia é criar um círculo virtuoso de visibilidade e afeto tanto pela cidade quanto pela arte, numa grande e colorida celebração da vida que temos aqui.

Sobre exposições, estou participando neste momento da coletiva Um Lugar Espelhado na Arte, no Shopping Benfica com obras da minha série de pinturas Sertão Colorido. Em fevereiro as obras dessa série seguem para o Rio de Janeiro, onde farão parte da Mostra Turismo Ceará no Rio, que será no Barra Shopping. É bem possível que eu vá pintar ao vivo já nessa exposição do Rio. Ainda na pintura estou trabalhando numa série de quadros sobre Guaramiranga e região, que pretendo expor lá. E vou ainda produzir mais algumas telas da série Borboletas.

Além disso, estou trabalhando num novo projeto, onde faço uma releitura, no meu estilo, daqueles retratos antigos de casais. Devo começar a mostrar alguns ainda este ano e seguir com eles por 2022. São desenhos digitais, que serão feitos sob encomenda e, se os clientes quiserem, também farei uma versão pintada em tela.

Frisson: O que é ser artista? 

Elinaudo Barbosa: Me lembrei agora de quando era criança, ainda na casa sem luz elétrica, e as pessoas contavam sobre os filmes que passavam na TV. O protagonista era o “artista”, era o cara que vencia todos os obstáculos heroicamente para chegar ao final feliz. Ser artista tem um pouco disso. Você precisa vencer os “nãos” e as dúvidas sobre um tipo de trabalho que não é reconhecido, muitas vezes, como atividade econômica. Travar uma batalha para finalmente chegar ao “Happy End”. Aí a magia acontece! Porque ser artista é mágico. Você traz cores e alegria ao mesmo tempo que levanta questionamentos sobre a realidade em volta, que apresenta novas maneiras de ver o mundo. Com a arte podemos fazer rir, emocionar, divertir, alegrar, contar histórias reais ou fantásticas, ou misturar as duas. É maravilhoso ser artista!

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