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Com uma vasta produção artesanal e 80 anos de história, Espedito Seleiro é patrimônio vivo no Ceará

A arte passou para os filhos e se estendeu para os netos, criando assim uma oficina familiar, em que a tradição e a memória se mantém vivas por meio do ofício

Foto: Divulgação

Há 80 anos e alguns poucos meses, nascia Espedito Seleiro. Mestre do artesanato - principalmente no que diz respeito as selas dos vaqueiros - e patrimônio vivo do Ceará, o mestre da cultura nasceu cidade de Arneiroz, no dia 29 de outubro de 1939. Em 1949, se mudou para Nova Olinda, onde mora até hoje, trançando o couro e vivendo de sua própria criação.

A arte passou para os filhos e se estendeu para os netos, criando assim uma oficina familiar, em que a tradição e a memória se mantém vivas por meio do ofício. Casado com a Dona Francisca, pai de nove filhos e já avô de cinco netos, Espedito é história orgânica e, o melhor, viva. 

Com uma trajetória de 80 anos e um interesse sertanejo, Espedito compartilhou um pouco de sua sabedoria, sua história e sonhos com a Frisson. Confia a entrevista:     

Frisson: Você é natural do Ceará, certo? Pode nos contar suas lembranças de criança, o que mais te marcava na região? 

Espedito Seleiro: Eu acho que o que mais marcou o meu tempo de adolescente, jogar bola, correr atrás de gado no campo e trabalhar na roça. 

Frisson: Pode nos contar um pouco sobre sua história com Dona Francisca, sua esposa? E sobre sua família? Quem são e quantos são seus filhos, netos… 

Espedito Seleiro: 52 anos de tranquilidade com ela. Ela trabalhava comigo, eu cortando as peças e ela costurando. Foram seis filhos, hoje só existem cinco. O mais velho dos homens, José Roberto, o do meio, Wellington, e o mais novo, Francisco, conhecido como Maninho. E são três mulheres: Maria Inês, a mais velha, Maria Edivânia e Cícera. Os netos são cinco: Maria Fernanda, Andrea, Rayssa, Mayssa e Adriana. 

Frisson: Você iniciou seu ofício de artesão como seleiro. Pode revisitar conosco sua trajetória? 

Espedito Seleiro: Comecei fazendo sela, equipamento pra vaqueiro, para cigano, pra tropeiro… Era o que eu mais fazia. Mas, ao passar do tempo, que acabou a vaqueirama e não existem mais aqueles ciganos, eu resolvi mudar de trabalho. Hoje eu to trabalhando pra todo mundo, todas as pessoas, não importa se é “dotor”, enfermeira, se é padre. A gente trabalha pra todo mundo hoje.  

Frisson: Você passou o conhecimento de seu pai e avô para seus filhos, irmãos, como uma forma de preservar essa memória. Como o artesanato se relaciona com a memória e tradição? 

Espedito Seleiro: Primeiro lugar, porque eu quero manter a tradição do vaqueiro, do cigano e do tropeiro, que é a vida do sertão. Segundo, porque eu não sei fazer outra coisa a não ser trabalhar com couro. Por isso que eu comecei novo e ainda  hoje to no mesmo trabalho, para não deixar acabar a nossa cultura. E também para sobreviver com isso aqui, porque a gente não sabe fazer outra coisa. Pra não deixar acabar. 

Frisson: Como percebeu que gostaria de seguir o ofício da família? 

Espedito Seleiro: É uma tradição de família. A gente já tem sangue de seleiro e tem que manter o que a gente sabe. É só isso. É manter o que sabe e segurar a cultura. Hoje, isso era uma coisa que a gente usava no sertão, que é do povo sertanejo, e hoje a gente ta mandando pra outro lugar. Eu resolvi mudar [o estilo do produto] porque não tava mais vendendo do estilo que a gente fazia. 

Frisson: E para além das selas, para quais áreas do artesanato foi se aventurando? 

Espedito Seleiro: Ainda hoje eu faço sela. É pouco, mas a gente faz. mas eu mudei o estilo da sela, não é mais aquela sela campeira. É uma sela de estilo diferente, toda trabalhada, desenhada, e as pessoas compram até pra decorar. Além de eu ter mudado o estilo da sela, eu passei a fazer bolsa, sandália, sapato, umas peças coloridas, com muito sacrifício, fazendo a tinta pra pintar o couro e desenhando. Hoje a gente mantém essa história viva. 

Frisson: O ofício virou, de fato, um trabalho familiar. Qual a participação da sua família na oficina?

Espedito Seleiro: Do jeito que eu aprendi com o meu pai, meus filhos aprenderam comigo. Hoje trabalham todos, só não o falecido. Tudo o quanto eu já fiz e to fazendo hoje, todos já fazem. Todos eles já fazem. Eu passei para eles e eles aprenderam. Se eu morrer hoje, eles continuam fazendo. 

Frisson:  Além do ofício de artesão, quais são seus passatempos?

Espedito Seleiro: Quando eu não to na oficina, gosto de passear. 

Frisson: O senhor se denomina como Espedito Seleiro. Mas além de seleiro, quem é o Espedito?

Espedito Seleiro: O Espedito Seleiro não tem outro Espedito não, é só esse mesmo. Espedito Seleiro e pronto. 

Frisson: Quais suas maiores fontes de inspiração nas artes?

Espedito Seleiro: Eu gosto muito de me inspirar na paisagem, nos vaqueiros e nos ciganos. São essas três coisas que eu me inspiro mais. 

Frisson: Como foi o convite e o desenvolvimento da peça do time do Fortaleza?

Espedito Seleiro: Acho que foi através de uma amizade que a gente tem e de um trabalho. Acho que as pessoas, vendo o trabalho lá, acharam importante que a gente pudesse desenvolver algo para o time. O que aconteceu: a gente se reuniu, passou três meses fazendo os planos e no desenho, e acabou saindo o que eu queria, a inspiração do vaqueiro. 

Frisson: O que o senhor espera após a pandemia?

Espedito Seleiro: Não existe nenhuma coisa ruim que no fim não traga uma boa. Eu espero que o mundo ‘vai’ ser liberado pra nós todo mundo passear e andar, e a minha freguesia, continuar. 

Frisson: Conte um sonho seu que ainda tem para realizar? 

Espedito Seleiro: Tenho muitos sonhos ainda para realizar, mas o meu sonho maior que eu tenho é deixar a praça que tem aqui na frente da oficina e da casa que eu moro… Tenho o sonho de deixar coberta para fazer uma praça de eventos. Pra vir os mestres, se apresentar todos, mostrando a nossa cultura, do nosso Brasil e do nosso Ceará, aqui tudo na pracinha do Espedito Seleiro. 

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