Nova superintendente do Dragão do Mar, Helena Barbosa defende a autonomia do equipamento
A gestora conversou com a Frisson sobre a relação do Dragão do Mar com a Cidade e defendeu a autonomia do equipamento para sua manutenção a partir de recursos captados por conta própria

Foto: Lino Vieira
Nova superintendente do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, Helena Barbosa assumiu o cargo no último 23 de janeiro, e traz consigo uma bagagem cultural de especializações, pesquisas e produções artísticas. Em entrevista para a Frisson, Helena afirmou que pretende manter diálogo com artistas locais e levar seu repertório como gestora de outros equipamentos culturais para sua condução. Graduada em Ciências Sociais, Helena afirma que seu principal objetivo para este ano é "estabelecer e executar um plano de cuidado do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura".
A gestora conversou com a Frisson sobre a relação do Dragão do Mar com a Cidade e defendeu a autonomia do equipamento para sua manutenção a partir de recursos captados por conta própria. Confira a entrevista:
Frisson: Sua trajetória é marcada por pesquisas, livros e outras atuações. Mas como começou sua ligação com a cultura e a arte?
Helena Barbosa: Costumo dizer que desço o morro para engolir a cidade. Isso tem relação com apetite pela descoberta do novo, ao mesmo tempo que se conecta com um cenário de carência. Desci pela primeira vez sob essas circunstâncias: atravessar fronteiras e buscar uma fonte de renda. Saí do Castelo Encantado (Grande Vicente Pinzón) para o bairro do Papicu no intuito de me inscrever no curso de Produção de Vídeo da ONG Encine. Eu não fazia ideia do que era Audiovisual, mas, aos 14 anos, tinha duas convicções: o desejo próprio do efeito de exploração do desconhecido e a vontade de agarrar a oportunidade do primeiro emprego que o curso ofertava. Ancorei na ONG pensando que ia aprender a montar aparelho de videocassete (era essa minha ideia do termo produção de vídeo) e acabei esbarrando em um processo de formação que incluía roteiro, fotografia, áreas técnicas, antropologia, filosofia e, ao final, estágio em um programa de TV. Fiquei dois anos produzindo o Programa Megafone da TV Cultura. De lá, caminhei para integrar a primeira turma do Curso de Audiovisual do Complexo Vila das Artes. Sou cria do Castelo. Sou cria de Ong. Sou cria de um Ponto de Cultura. Em outras digestões e afluências, continuo descendo o morro para engolir a cidade.
Frisson: Você possui uma série de especializações e experiência em pesquisa cultural. Pode falar do que acredita que são os destaques dessa sua trajetória?
Helena Barbosa: Tem duas experiências que destaco quando o assunto é pensar essa cidade mediada pelo efeito da ação cultural. Elas são: a pesquisa da minha monografia, que foi publicada pela editora da Universidade Federal do Ceará (UFC), e a pesquisa da minha última pós-graduação, coordenada pelo Itaú Cultural/Instituto Singularidades. As duas têm os territórios criativos em sua centralidade. Na primeira, sob o ponto de vista de uma pesquisadora da área das Ciências Sociais, enquanto que a segunda fundamenta sua análise na perspectiva da gestão cultural.
Na pesquisa “Se essa rua fosse minha: as crianças e suas narrativas do bairro Vicente Pinzón”, analisei os discursos (verbais e visuais) das crianças, procurando entender qual seria a sua contribuição nesse processo de interpretação do seu bairro e da sua cidade. Por meio de uma análise imagética e discursiva, construí um mapa afetivo que retrata de forma minuciosa as representações do território construído pelas crianças, além de possibilitar discussões em torno de questões sociais, tais como, práticas culturais, coletividade, identidade, conflitos e políticas públicas.
Na pesquisa “Entre a espada e o encantamento”: o uso do instrumento do Índice de Convivência Intercultural (ICI) para implementação de uma cultura das encruzilhadas na Gestão Cultural”, reflito sobre a ação da gestão cultural nesses territórios criativos a partir de um estudo de caso da política cultural gerida pelo Instituto Dragão do Mar. Nesse estudo, o mapeamento e a percepção das desigualdades, das contradições e dos conflitos são pontos de partida para formulação de uma via que fortaleça a convivência intercultural. Provoco a formulação de um índice que compreenda as diferenças culturais como oportunidades de desenvolvimento coletivo.
Frisson: Como está sendo o seu primeiro mês como gestora do Dragão do Mar? Há alguma atuação que gostaria de destacar?
Helena Barbosa: Os primeiros dias estão sendo de reconhecimento de território. Não há formulação de estratégias de atuação sem, a priori, praticar um movimento de diagnóstico da situação. Há uma memória viva dentro do CDMAC e é preciso, antes de qualquer coisa, estabelecer um canal de diálogo com essas pessoas. Fiz uma reunião geral para me apresentar à equipe e, em seguida, realizamos uma intensa agenda de encontros com cada núcleo. Na pauta dessas reuniões setoriais, priorizamos os seguintes eixos: visão geral organizacional (conceito, organograma, atribuições e fluxos), revisão dos programas, da gestão e do desempenho. Esse foi um diálogo interno. Nosso próximo passo é estabelecer uma conversa com a sociedade civil. Tenho escutado muitas sugestões para o Centro Cultural. Quero ouvir a cidade. Estamos amadurecendo uma ação para abrir as portas do Dragão do Mar e iniciar esse processo de escuta do que os trabalhadores da cultura e o público em geral têm a dizer sobre esse lugar. Seria ingênuo pretender que uma gestão seria suficiente para corresponder todas as expectativas, mas esses relatos, organizados de forma sistêmica, serão considerados em nosso plano de desempenho.
Frisson: Como a instituição simboliza a cultura do Estado? Há alguma relação de sua atuação com a força cultural do Ceará?
Helena Barbosa: Quando a gente busca uma imagem para representar a cultura no Ceará, logo me vem à mente a ponte vermelha do Dragão do Mar. Durante muito tempo, era essa a assinatura nos cartões postais e no imaginário da cidade. Falo da ponte, mas acredito ser esse apenas um símbolo do que na prática todos espaços deste centro entregou enquanto oferta cultural. O capital cultural que circula aqui há 24 anos é de uma grandeza que atravessa muitas fronteiras. Shows, exposições, filmes, espetáculos, são muitas as expressões culturais que estruturam esse lugar como um centro forte de narrativas artísticas cearenses. A potência desse complexo carrega um lastro que chega com muita firmeza também em outros estados, na esfera privada, nos circuitos alternativos e comerciais. O Dragão é um polo imenso de possibilidades. Esse DNA, pautado na mistura, na multiplicidade e nos cruzamentos, deve ser reativado como rumo da nossa trilha.
Frisson: Você já trabalhou como gestora em outros equipamentos culturais. Pode apontar quais foram? O que pretende trazer deles para o Dragão do Mar?
Helena Barbosa: Já ocupei o cargo de produtora e coordenadora de produção no Centro Cultural Bom Jardim e fui gerente e gestora executiva no Centro Cultural Porto Dragão. Em Sobral, no Instituto Ecoa, assumi o cargo de diretora de formação e criação. Essas experiências têm em comum quatro eixos: reflexão crítica sobre nosso ofício (valorização da memória, reconhecimento do que já foi construído e análise sobre o cenário), promoção da institucionalidade (estudo sobre a identidade da organização, atualização de instrumentos de gestão e busca de excelência na execução das ações), ocupação diversa e coletiva (na estruturação de quem está executando as ações meios e finalísticas). Esse é o repertório que carrego comigo e que, certamente, norteará esse novo desafio.
Frisson: Você também assina projetos audiovisuais. Pode explicar mais sobre sua participação no cenário artístico do Ceará?
Helena Barbosa: Venho da Vila das Artes. No período de 2007 a 2009, estive dentro dos sets de filmagens e nos backstages dos festivais dessa linguagem. Produzi curtas-metragens, longa-metragem na categoria documentário, longa-metragem na categoria ficção, webséries e outras obras audiovisuais em correalizações. O meu perfil sempre foi executivo, então, ainda no audiovisual, consegui lidar de forma mais produtiva com as áreas de gerência, produção, fluxo financeiro e prestação de contas. As ações que envolvem as áreas da legislação, escrita com projeto e organização fiscal são, em grande maioria, o meu lugar de atividade.
Frisson: Como está sendo o diálogo com artistas da região? Já houve algum encontro? Se não, há planos para que ocorra?
Helena Barbosa: Esse encontro será fundamental. Não há êxito em uma gestão que não assume o diálogo como lugar central. Estamos finalizando os encontros com os setores internos e, na sequência, será proposto um seminário para ativar essa escuta com os trabalhadores da cultura, parceiros e o público em geral.
Frisson: O Dragão do Mar é gerido pela Secult e pelo Instituto Dragão do Mar (IDM). Como vêm sendo os diálogos entre você e essas instituições sobre sua gestão no Dragão do Mar?
Helena Barbosa: Estamos conectadas na mesma frequência, intensidade e mesmo ritmo. O mapeamento das fragilidades, as estratégias de superação dos desafios, o planejamento estratégico para ascensão das ações do CDMAC são pautas prioritárias no discurso e na execução da presidenta do Instituto Dragão do Mar e da secretária da Cultura do Ceará. Compartilhamos a mesma avaliação de cenários, buscamos conjuntamente as vias de fortalecimento do equipamento e partilhamos métodos e rumos para esse progresso. A nossa perspectiva comum em torno da construção da política cultural e do conceito de institucionalidade torna fluído todo esse sistema de gestão compartilhada do CDMAC.
Frisson: Como você analisa a atuação estadual para a cultura? O que ainda é necessário ser feito por parte do executivo?
Helena Barbosa: A cultura tem que cada vez mais ocupar um lugar de centralidade nas políticas. O estado do Ceará vem despontando nesse movimento e é impactante quando a gestão concede esse lugar de importância. Isso passa por uma priorização orçamentária e a garantia de recursos para a execução da política, ao mesmo tempo que é fundamental que a articulação institucional e que o desejo político seja também uma ferramenta de gestão deste executivo. Vivencio e encontro uma configuração política que compartilha esse pensamento, o que torna instigante e promissora toda a entrega motivada a partir da ação finalística.
Frisson: Quais são seus planos para o Dragão do Mar em 2023? Pode destacar objetivos para este ano? Haverá alguma continuidade de gestões passadas?
Helena Barbosa: Neste ano, o maior propósito é estabelecer e executar um plano de cuidado do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. Isso passa por um expressivo movimento fundamentado na coletividade. De forma conjunta com os equipamentos circunvizinhos (a Escola Porto Iracema das Artes, o Centro Cultural Porto Dragão e a Biblioteca Estadual do Ceará), a Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, o Instituto Dragão do Mar, a Vice-Governadoria do Estado do Ceará e a Prefeitura de Fortaleza, desenvolver ações que pensem e proponham soluções para as questões sociais e urbanas dessa zona. Em parceria com as instituições do Governo do Estado, acompanhar, fiscalizar e monitorar as obras estruturais do prédio. Junto com a cena artística e os fóruns de linguagens, formular uma programação que represente toda a pluralidade dos territórios criativos do estado. O objetivo central é restaurar a autoestima do CDMAC e ampliar e qualificar a sua relação com os seus diversos públicos.
Frisson: E a longo prazo, o que acredita que é necessário ser feito no Dragão do Mar?
Helena Barbosa: Penso em três eixos estratégicos. É preciso desenvolver um plano de manutenção dos espaços que sejam viabilizados por recursos captados por conta própria e que, com essa técnica, o CDMAC alcance maior autonomia em desafios de pequeno e médio porte, assim como estabelecer uma prática institucional segura em seu corpo técnico, de modo que todos os problemas estruturais diagnosticados atualmente tenham uma dimensão menor no exercício cotidiano. Para isso, é fundamental ter fluxos bem estabelecidos, instrumentais atualizados e sistemas de modernização executando processos com excelência, estratégias que, se bem consolidadas, trazem celeridade, bom desempenho e transparência do ofício da gestão: alcançar um plano de maior integração com o território, com as instituições parceiras, com os trabalhadores da cultura e com a Rede de Equipamentos do Estado do Ceará.
















