Foi na cidade de São José do Egito, interior de Pernambuco, em 29 de dezembro de 1955, que nasceu um padre que devotaria parte de sua rotina para muito além do sacerdócio: cumprir uma missão que algumas pessoas consideram obrigação do governo ou daqueles de bolso farto.
Mas, não. Airton Freire de Lima, o padre Airton, fez de seu cotidiano uma forma direta e ousada de exercer sua solidariedade. E que solidariedade! Formado em Filosofia e Teologia pelo Instituto de Teologia de Recife, em Psicologia pela Faculdade de Ciências Humanas de Olinda e em Psicanálise pelo Centro de Estudos Freudianos, padre Airton concedeu uma entrevista exclusiva à Coluna Frisson, durante a qual falou da carreira religiosa, das dificuldades do cotidiano e da emoção de comandar a Fundação Terra, além de assumir a tristeza pela falta de compaixão humana. “Sofro pela indiferença de muitos, frente às necessidades de tantos pobres”, declarou.
Confira a seguir:
Quando você descobriu a vocação para servir a Deus? Teve alguma intuição que iria seguir o caminho religioso?
Até onde alcança minha mais antiga lembrança, eu deveria ter nove anos de idade quando senti que seria padre. Veja bem: eu senti que seria padre.

Como e qual foi seu primeiro contato com Deus? Sua missão começou na Rua do Lixo?
O amor pelos pobres e o gosto pelo estudo marcaram a minha vida, já em tenra infância, apesar de ser eu o menino “zuadento, arengueiro, malinoso”, palavras do linguajar do sertão, onde nasci.
Sobre o trabalho na Fundação Terra, como teve início? Que dificuldades enfrentou no início? O que tocou o senhor para dar início ao projeto social?
Depois de ficado muito impressionado com a situação de miséria que encontrei na Rua do Lixo, resolvi morar lá. Sofri pela extrema miséria que encontrei e pelo que tive que viver junto a eles. Fato que me tocou bastante: uma criança, na primeira missa que celebrei lá, gritava: "por amor de Deus, me dê bolacha", era o momento da distribuição da comunhão. Era muita fome. Um segundo fato: levava eu uma criança nos braços para o hospital, ela tinha contraído cólera. Sabendo que não era batizada, e como este era o desejo expresso de seus pais, “que ela não morresse pagã”, comecei a chorar, tendo a criança em meus braços, sem água e em meio a um ermo onde só havia lixo. Então, olhando para o rosto da criança eu disse: “José, eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Com as lágrimas minhas que caíam sobre o seu rosto, eu batizei José. Foi assim.

A Fundação Terra está em cidades como Fortaleza, São Luís, Teresina, Recife e Belo Horizonte. Há algum interesse em expandir para outros municípios?
A Fundação existe para servir aos pobres. Depois, dos retiros em várias cidades, as pessoas perguntam como podem dar continuidade a esta proposta de evangelho na prática, aí nascem os grupos da Terra que já existem em nove estados do Brasil e no exterior. No Ceará, estamos no Alto Alegre, região de Maracanaú, área muito pobre.
O senhor tem algum sonho que deseja realizar?
Gostaria que mais pessoas “acordassem” para a alegria de servir.
Quais seus dons? Pode nos explicar melhor?
Gostaria que Deus me concedesse em abundância o maior de todos os dons, que é o dom de amar. Mas, como não o tenho como Deus tanto de mim deseja, suplico ao Senhor, em minha insuficiência, que ele me escute quando tenho que fazer ou dizer algo a alguém. Vendo que nada disponho, senão meu próprio limite, ele tem piedade de mim e, segundo seu tempo e sua vontade, Ele escuta e atende. Deus é Deus, o absolutamente santo e misericordioso. É assim.
Ao longo de sua trajetória, quais alegrias e decepções mais te marcaram?
Sofro pela indiferença de muitos, frente às necessidades de tantos pobres. Sofro pelas dores que sinto e não sei explicar como nem por que.
Qual a relação afetiva que o senhor possui com a árvore Baobá que existe na entrada da fazenda da Fundação Terra?
O Baobá vive de 2.500 a 5.000 anos. Abundante no Senegal, África. Transmite para mim esta árvore que, em meio à transitoriedade, há que se plantar o que lança raízes para o permanente. Isto há de ser a marca de toda a obra dos Grupos da Terra e dos servos de Deus: solidez de fundamento para que a transmissão alcance longos anos, como o Baobá.
De que maneira o senhor sente e explica o milagre da transformação da árvore Baobá que dizem que irá acontecer com sua partida?
Quando eu partir, uma baraúna, que hoje está morta, na entrada da Comunidade de Vida, voltará a viver. Baraúna, não Baobá. 
A quê o senhor atribui o fato de tantas pessoas quererem te conhecer?
Acho que porque não é comum se ver um homem vestido de saco e amarrado com uma corda, em pleno século vinte e um. É por isso.
Atender a mais de 4 mil famílias não deve ser simples nem fácil. De que forma é preparado o Natal e demais eventos?
Como não tenho, peço. Afinal, toda essa obra não pode ser obra de um só homem, mas de um grande mutirão em favor dos pobres de Arcoverde e de Maracanaú.
Como faz para administrar o tempo entre vida pessoal, sacerdócio e a Fundação Terra?
Estou à disposição do que o Senhor deseja de mim. O tempo é também dele e eu sou um servo de Deus.
Como deseja que a Fundação Terra esteja quando o senhor partir?
Que ela esteja autossustentável e que haja cursos profissionalizantes para a juventude.
Nas horas vagas, o que mais gosta de fazer?
Acredita mesmo se eu disser?
Sim. Conta.
Gosto de estudar hebraico. Muito mesmo. Gosto.

Como define sua relação com Fortaleza? Como é o trabalho da Fundação Terra na Capital Cearense?
Fortaleza, por sua peculiaridade de fé e adesão à palavra, tem sido um referencial para outros grupos da Terra em vários estados do Brasil. O trabalho social na região de Maracanaú é um marco. Os retiros a cada dois meses, anunciando e ouvindo o povo de Deus. Assim é o trabalho. Eu sou um padre que escuta.
Quantas pessoas contribuem mensalmente para a Fundação?
A Fundação Terra tem um déficit mensal de 30 mil reais. Em Arcoverde, nós distribuímos 900 pratos de comida por dia, o que equivale a 27.000 refeições por mês. Incrivelmente, os financeiramente mais pobres são os que mais contribuem com a obra, cerca de duas mil pessoas.
E quem quiser doar e conhecer a Fundação, como deve proceder?
Entra no site www.fundacaoterra.org.br ou telefona para (87) 3821.1826. Em Fortaleza, na Rua Carolina Sucupira, 155. O telefone para contato é (85) 3234.4111.
Quantos livros o senhor já escreveu e como encontra tempo para escrever?
Livros: 127. CDs: 153, sendo 15 de músicas e os demais de fala. Eu falo nos retiros e isto é digitado e se tornam capítulos de livros, de acordo com os temas. Os CDs também.

Se fosse dada ao senhor a autoridade para resolver os problemas das cidades, o que iria solucionar?!
Educação, no sentido pleno da palavra, e saúde preventiva. As demais coisas viriam em decorrência.
Como analisa a situação da Igreja Católica atualmente no Brasil e no mundo?
Deus nos presenteou, outra vez, com um Francisco. Isto é um marco para a Igreja Católica e para o mundo. Uma nova primavera se inicia.
Qual a importância do Papa Francisco para este novo momento do catolicismo?
Ele nos fez lembrar que os atos falam mais do que palavras. Tocam-me profundamente sua simplicidade, seu zelo e sua profundidade. Amo Francisco, outra vez, Francisco!
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Qual a mensagem que o senhor deixa para os leitores da Coluna Frisson?!
Uma frase minha: “É possível recomeçar sempre, como se fosse a primeira vez”.
Para finalizar. Aos 57 anos, como o senhor explica e define a vida?
A vida é um presente. Se vivida neste presente, será o melhor presente. Pois, o presente é melhor que qualquer passado.
Fotos by Lino Vieira.














