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"Competir é preciso", por Breno Leal Lima

Breno Leal Lima é formado em Educação Física e há 10 anos trabalha como treinador de triathlon, corrida, natação e ciclismo. Já foi atleta de natação e é triatleta desde 2009

Heather Jackson, triatleta de longa distância. Foto: Authority Magazine 

A última medalha conquistada parece não ter o mesmo brilho de antes, culpa do tempo. Implacável. A pandemia, dentre tantas dolorosas perdas, nos afastou da linha de chegada. O vazio deixado também nos trouxe reflexões de como lidamos com o esporte, o evento e a própria competição.

O termo "competição" compreende todo tipo de evento esportivo que você se inscreve e treina para aquele fim. A competição é descrita como colocar duas ou mais partes contestando algum recurso (1), esta podendo ser sutil ou intensa, direta ou indireta, formal ou informal e que resulte em vencedores e perdedores (no caso de embate com alguma forma de escore) ou oferecer diferentes combinações de resultados.

No nosso ambiente, esportes de endurance, competir pode ser contra adversários, ainda que possam ser nada mais que parceiros que nos ajudam na busca de uma melhor performance e que podem terminam em posições à frente ou a seguir do nosso resultado final, ou a experiência de viver aquele momento, e que o resultado de vitória ou derrota fica numa questão pessoal ou interpessoal.

Uma disputa gera longos debates sobre se é útil ou não no endurance, especialmente entre os amadores, que vislumbram a carreira esportiva mais como um estilo de vida do que um currículo atlético. O "estar à frente" ou "ser o último" tem diferentes pesos na vida e personalidade de seus praticantes. Competir interfere de forma benéfica ou maléfica ou, na maior parte dos casos, negativa e positiva em conjunto!

A competição, geralmente, é associada à oposição de cooperação. No ambiente esportivo pode induzir um comportamento hostil e agressivo. Alfie Kohn (1) demonstrou que a competição diminui a performance, aumenta a hostilidade e agressividade, interfere no desenvolvimento de auto estima e cria estresse e ansiedade.

No entanto, para Shields e Bredemeier (1, 2), promovendo um ambiente que combine uma estrutura competitiva com uma orientação pessoal direcionada à excelência desafia mutuamente os concorrentes. O termo "descompetição" é utilizado para que se crie uma imagem nova aos eventos de caráter competitivo.

Particularmente, tenho admiração em quem vibra com as competições da mesma forma que tenho interesse em quem externa ansiedade em estar nesse tipo de situação. Penso que nenhum atleta é totalmente um ou outro perfil, a sua atitude depende da preparação física e mental, é verdade, mas sofrerá influências de fatores externos que podem ser da própria prova em si ou de situações na vida do atleta. 

Existe o reforço positivo na competição, que é inerente em qualquer esporte. As maiores conquistas individuais de cada atleta serão reconhecidas. Quando o atleta ou o time se prepara para vencer (ou melhorar sua performance ou os dois), o foco, a determinação e a energia empreendidos serão maiores.

A análise do desempenho envolverá uma associação entre a expectativa gerada e o resultado de fato, baseados em como o atleta reage a cada situação. 

Absorvendo de maneira assertiva, toda competição é reflexo do seu momento atual construído pelo que fez no passado e é aprendizado para um futuro desafio seja no campo esportivo, seja no âmbito profissional ou em questões pessoais.  

O embate, o confronto ou a experiência exigem saber qual a dimensão que a competição tem na sua vida. E se permita responder sinceramente para si esses questionamentos: 

O que impacta no seu cotidiano? 
Qual a energia que você dispõe em competir? 
O desempenho na modalidade tem algum valor para você ou para a sua comunidade? 
De que forma você assimila estar à frente de uns e atrás de outros?

A resposta correta será a sua. No fim, você pode chegar à conclusão se competir ajuda ou atrapalha. A sua personalidade não será moldada pela prova, o modo de competir que é determinado pela sua originalidade.      

O que se deve encarar na competição
Toda competição atinge seus participantes em forma de ameaça ou de desafio (3) à sua personalidade, à sua capacidade de concentração e ao treinamento realizado, desde o mais experiente até o novato.

Conforme se repete o ato de competir, ficamos mais familiarizados com essa "ameaça ou desafio" e vamos aprendendo a contornar ou encarar o que estamos sendo expostos. 

Adversários existem, porém, não são necessariamente uma força maligna que veio para lhe colocar num plano inferior e, na maioria das vezes, você termina uma prova sem nem os conhecer, estavam ali próximos durante todo evento e lhe serviram como uma espécie de referência. 

O desejo de vencê-los não pode ser confundido com a vitória a qualquer custo, suprimindo com agressividade e sem espírito esportivo. A ideia de pôr atletas em competição foi de colocá-los frente a frente nas suas melhores condições e vê-los como eles se superam entre si e individualmente.  

Numa competição, você pode planejar todos os passos e, no nosso caso, conseguimos estabelecer pequenas metas ao longo do percurso que vão nos mantendo concentrados na tarefa a ser feita. 

Imprevistos acontecem, na forma e na hora que menos esperamos, e saber lidar com eles coloca a interpretação do resultado em cheque. 

Como analisar o pós-competição
A análise após uma competição deve ser baseada no que ocorreu durante o evento. Uma das preocupações do atleta é conseguir impressões positivas de quem lhe orienta ou alguma opinião que valide seus esforços.

Ressalto que o treinador não faz juízo de valor em razão do resultado. O que o profissional analisa é como o planejamento funcionou, se algo do que foi treinado escapou do que se esperava, como o atleta reagiu com os altos e baixos da prova. 

Novamente, as informações e os objetivos vão ser encontrados em uma comunicação transparente entre atleta-treinador e todo resultado. 

Identificar objetivos concluídos no planejamento, assim como perceber as falhas irão valorizar o seu desempenho. 

No endurance, o atleta começa a entender que a prova perfeita é quase uma utopia, dada as variáveis que ele deve gerenciar e que são sempre pontos frágeis para mantê-los durante todo o período no seu estado de excelência.

Baseado na competição, definir os próximos objetivos alinhando com uma recuperação bem planejada, irão nortear a metodologia do treinamento empregada no próximo ciclo (4).

Como precisamos viver com as circunstâncias que a vida proporciona, temos que nos ater ao que é possível fazer. Uma retomada às competições ainda não é uma realidade, mas repensar a forma de praticar e competir está sendo exigido de cada um de nós atletas, treinadores, organizadores e todos os envolvidos em eventos esportivos.

Não ficarei surpreso em ver atletas habituados ao período sem competições. Contudo, sem tais eventos, receio de que haverá menos objetivos para um atleta manter-se engajado com esportes que demandam esforço físico e prática a longo prazo para que se usufrua dos benefícios do exercício aeróbio. 

As referências são perdidas ou menos perceptíveis quando não há vencedores e perdedores, sem os "melhores e piores" fica complicado determinar como evoluir no esporte e uma tendência de estagnação, que pode fazer a curva descer para a involução à medida que o tempo for passando. 

A evolução não estará apenas em conhecer os campeões, seus resultados influenciarão na inovação em equipamentos, alimentação, treinamentos e também no formato da competição, colocando um produto cada vez melhor para quem quer consumir.

Se conseguirmos entender que perder e vencer fazem parte de um intricado e complexo de desenvolvimento, alcançaremos o objetivo do esporte.

Se mantivermos o pensamento de que vencer nos torna superior aos nossos colegas praticantes, a probabilidade de não nos manter no esporte fica a uma derrota da sua continuidade. 

Ter adversários, encarar adversidades, embarcar numa experiência única! Competir é preciso.

Breno Leal Lima é formado em Educação Física e há 10 anos trabalha como treinador de triathlon, corrida, natação e ciclismo. Já foi atleta de natação e é triatleta desde 2009 

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