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Dono do restaurante Famiglia Mancini, Walter Mancini exalta o poder da arte e da solidariedade

O empresário conversou com a Frisson sobre sua trajetória e valores

Foto: Divulgação

Arte, solidariedade, amor ao próximo e até matemática. A história de Walter Mancini foi marcada por diversos valores, sentimentos e profissões. Dono de diversos estabelecimentos na rua Avanhandava, onde cresceu, no Centro de São Paulo, Walter explica que sua história como empresário iniciou no dia 10 de maio de 1980, quando o primeiro restaurante Famiglia Mancini foi inaugurado. 

Depois daí, seguiu aumentando seus negócios, expandindo os restaurantes e investindo na revitalização da rua Avanhandava. Em 2016, inaugurou inclusive uma nova fonte e gazebo, mas mais do que falar de seus empreendimentos, Walter adora conversar, falar por meio de alegorias e contar histórias envolvendo a nostalgia, o carinho pelo próximo e o amor pela sua cidade e, principalmente, pela sua rua. 

O empresário conversou com a Frisson sobre sua trajetória e valores. Confira a entrevista exclusiva:

Frisson: Walter, um momento tão prazeroso, como é o de se reunir junto à mesa e celebrar a vida, você ainda agregou com o prazer da boa música, do teatro. No seu ponto de vista, como seria a vida sem as artes, o teatro, a escultura, a dança?

Walter Mancini: Eu acho o seguinte, que a dança, a música, as esculturas, as pinturas, a arquitetura… Isso faz parte da alma humana. Me vem uma história interessante que eu tava dizendo para o meu filho há muitos anos, quando ele era pequeno. Ele devia ter uns 11 anos de idade. Eu olhei um caderno de escola dele e vi ali… Eu não tenho educação formal e pouco conheço disso, mas eu vi um trabalho de matemática que tinha contas, raiz quadrada, colchetes, aquela coisa toda. E eu olhando todo aquele trabalho e quando coloquei ao lado uma partitura musical, com uma música escrita, eu senti que as duas eram iguais pra mim, para o meu cérebro. Parecem irmãos gêmeos. E com razão, porque a música é matemática, Deus é matemática, o universo é matemática.

Então eu tava explicando para ele. Eu tenho a impressão que Deus se reuniu e disse ‘a terra é um hospital suspenso no sistema solar. É uma coisa difícil, o ser humano adoece, adoece a alma, o corpo. Mas o que fazer com essas pessoas que estão nascendo lá, para que possam caminhar, se desenvolver. Acho que vou ter que mandar para eles a matemática’. E Deus fez uma centelha no céu e ela entrou no cérebro humano, e aí nasceu a matemática. deus mandou para que o homem pudesse desenhar a roda, navios, fazer seus cálculos.

Mas Deus, não contente com isso, disse: ‘olha, mas essa criatura humana, ele tem grandes tristezas. Eles terão suas fantasias. Então eu vou mandar para eles a música, para que eles possam cantar suas ilusões, devaneios’. E Deus enviou a música e ela entrou no cérebro humano. Veja que interessante. De um a zero, você pode ler o universo, e com sete notas musicais você cria sinfonias e músicas lindíssimas. Acho que isso tudo faz parte da vida, a música é importante, a arte é importante, você expressar esse sentimento. Eu gosto muito da arquitetura, a pessoa que desenha a casa para a outra viver… E isso para mim é muito importante, dá uma grande felicidade. 

Frisson: Qual a sua relação de amor com o teatro e quando começou tudo isso?

Walter Mancini: Eu, quando jovem, com 17 anos de idade, eu morava sozinho no Centro da Cidade, porque fui um homem do Centro. Eu morei numa rua por mais de 20 anos, onde tudo acontecia, a TV Record, tinham cinco teatros, uns cabarés, o nascimento de discotecas, vários restaurantes… O mundo acontecia ali. É como se o anjo das fantasias e festas tivesse colocado tudo na rua onde eu morava. Então eu convivi muito com artistas, cantores, dançarinas. Trabalhei em discoteca e fui dançarino… Esse foi meu mundo. Era uma outra época, uma época muito bonita e encantadora. 

Pouco antes de abrir a Famiglia Mancini, que foi em 10 de maio de 1980, bateram na porta e era uma pessoa do teatro, vários atores e artistas. Eles entraram e a gente fez uma pré-inauguração de improviso, na noite que eu recebi a chave do imóvel. E eu devo tudo ao teatro. Devo a deus, aos meus amigos e ao pessoal do teatro. É uma trilogia de forças. Não tenho como me apartar e eu só posso agradecer. E eu sou um devedor desse afeto. Sempre fui muito ajudado na vida. Então é isso, essa é a minha relação com o teatro. Esse ano eu faço 80 anos, para você ver quanto tempo faz. Tá lá atrás.

Frisson: A palavra muito presente e constante no seu vocabulário é a “generosidade”. E isso pode ser comprovado por quem visita o restaurante Famiglia Mancini. Por que essa palavra se tornou tão presente na sua história?

Walter Mancini: Pra mim, a generosidade é o único poder absoluto do universo, porque é partilha, dádiva, amor, grandeza. Eu acho que é tudo, e isso é poder. Ser generoso é ser poder. Tem outra uma história que eu estava contando para a minha filha. Eu disse pra ela que eu era criança no céu. Todas as pessoas no céu são pequeninas. E de repente, andando lá em cima, brincando, Deus me chamou e disse que eu tinha que descer na terra. Ai eu disse que eu não queria, mas ele disse que não tinha “não quero ir. Eu criei você e você tem que ir. Existem arquivos dentro de você, você tem que aprender, passar coisas adiante. Você tem um trabalho a fazer”. Ai eu disse ‘Não quero ir para lá, sei que lá é uma confusão, quem vive lá são os humanos, têm mais de 100 mil idiomas, têm mais de 20 mil religiões, não se entendem entre eles, brigam, se batem, e eu não quero isso. E eu não quero ir porque você inseriu em mim todo o DNA do universo, e inseriu na minha alma todo o conhecimento. E eu sei que quando eu for lá na terra, eu vou sair de dentro de uma mulher, que eu vou chamar de mãe, ai eu sei que você coloca meu arquivo a zero, e eu desço sem saber de nada, vou ter que aprender a andar, a falar, a comer…’. Mas ele disse que eu tinha que ir, e eu perguntei: ‘Como que você, com todo esse amor que você tem por mim, faz com que eu desça no lugar daqueles que são violentos, agressivos, difíceis. A passagem pelo mundo é muito difícil, essa travessia da vida. Como você me faz descer sem nenhum equipamento?’. E Deus disse: ‘Com o passar dos anos, os arquivos vão se abrindo na sua alma, você vai aprendendo,  descobrindo… E você perceberá que eu te equipei com o único poder absoluto no universo’. É isso. Deus me fez generoso. E isso para mim é poder, é o poder do amor, da dádiva, da partilha, do cuidar do outro. 

Frisson: ‘Só partirá do mundo o amor que você tiver pelos outros e o bem que você fizer a eles e quantas você você puder sorrir’ e ‘Onde você vai com essa colher? Vou limpar a rua’. Diante dessas duas frases, que marcaram sua vida, Qual conselho o Walter de hoje daria para o Walter lá do começo?

Walter Mancini: Bom, o Walter de hoje daria para o Walter lá de trás e que aprendeu com a mãe: ‘Tudo aquilo que você toca, meu filho, não é real. É devaneio, é ilusão. Só o bem que você faz aos outros é real. E tantas vezes quantas você puder sorrir. Essa mesa, essa casa, é ilusão. Isso pertence à terra’. É uma coerência esse sentimento. Cuidador de rua, eu acabei revitalizando a Avanhandava, que é a primeira rua revitalizada do Centro de São Paulo, com o mesmo cuidado, mesmo amor. Era muito pequeno, mas a colher de café na minha mão era grande. Eu ficava limpando a sujeira que caía entre o paralelepípedo da rua que a gente vivia. Então estava sempre sujo, sobrava alguma coisa e eu ia e limpava. A grande verdade é que eu dei certo no mundo. 

Frisson: O que as pessoas de todo o Brasil e de outros países podem esperar quando chegar na avenida Avanhandava?

Walter Mancini: Eu não sei o que elas podem esperar, porque vai de cada um encontrar a beleza,o  encantamento, a felicidade. Eu não, acho que é uma rua bonita, bem cuidada. Eu revitalizei porque queria colocar uma fonte na rua, e coloquei. Vai encontrar isso, alguns restaurantes que eu montei… Tem gente que não fica feliz com coisa alguma e tem gente que se encanta com uma lamparina acesa. Às vezes você coloca um duo, trio, quarteto, quinteto tocando e a pessoa não fica feliz com isso. Outro escuta um pássaro e fica muito feliz. Eu espero que encontre felicidade e alegria, mas parte da alma de cada um, do interior de cada um. 

Frisson: Daí, podemos enviar mensagens para quem amamos por meio dos postais que você disponibiliza para quem te visita. Fala um pouco sobre os postais e, para quem o Walter mandaria um postal hoje como reconhecimento, agradecimento? 

Walter Mancini: O postal é uma coisa linda. Eu instituí o postal nas minhas casas há mais ou menos 30 anos porque eu percebi que nas bancas de jornal, antigamente se vendia postal para enviar, era fácil correio, e eu vi que isso foi sumindo. Eu fiquei pensando: ‘se eu criar um postal, emprestar a caneta e pagar o selo, eu posso mudar o mundo todo, posso entrar na casa de pessoas que eu nunca entraria. A gente manda postal pro mundo todo .É um trabalho muito bonito. E isso tem agradado a muitas pessoas e faz com que as pessoas conheçam a Avanhandava. E o postal tem uma característica curiosa porque as pessoas sempre dizem que se lembram da pessoa. Nunca ninguém diz que está mal.  

Quando eu coloco o postal na mesa e você escreve, eu estou te remetendo a 50 anos atrás. E se eu não te ajudar a fazer isso, se eu não te der o postal, te der a caneta, pagar o selo e levar para o correio, você não vai fazer isso. Eu tenho uma letra muito interessante, porque eu morava na rua de um pombal, aí eu pegava a pena, chanfrava com uma gilete e aprendi a escrever, a ter um movimento de mão com pena de pomba. Eu trabalho muito bem com caneta. Tenho vários trabalhos gráficos. Então o postal foi um achado. É uma forma carinhosa de você oferecer alguma coisa ao cliente, que escolhe a sua casa, porque, na oitava cidade do mundo com 25 mil restaurantes, ser escolhido por um cliente é um privilégio. 

 

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