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Vencedor da Maratona da Disney 2022, Vanilson Neves iniciou carreira na corrida com 12 anos

Com assessoria esportiva, recordes pessoais e novas aspirações, o corredor conversou com a Frisson e falou um pouco sobre sua trajetória

Foto: Lino Vieira

Com o sonho de andar de avião, o cearense Vanilson Neves começou a correr. Seguindo os passos dos irmãos e treinando em um projeto estadual nos anos 2000, o corredor viu no esporte uma oportunidade para viajar, mas foi descobrindo, aos poucos, uma afinidade pela corrida. Os primeiros resultados, na sua época de adolescente, não foram os melhores, mas Vanilson não desistiu. Percebeu seus erros, os aprimorou e amadureceu seus objetivos. 

A paixão então foi crescendo, tanto que, mesmo após andar de avião, não desistiu de seguir na carreira. Hoje, mais de 20 anos depois de sua primeira corrida, Vanilson foi o ganhador da Maratona da Disney 2022. Com assessoria esportiva, recordes pessoais e novas aspirações, o corredor conversou com a Frisson e falou um pouco sobre sua trajetória. Confira: 

Frisson: Vanilson, como você começou a correr? Lembra da sensação, de como foi descobrindo a paixão? 

Vanilson Neves: Meu início na corrida foi no ano de 2000 através de um projeto social chamado Projeto Atleta Ano 2000, que era condicionado pelo governo do Ceará, no estádio do Castelão. Na época, eu tinha apenas 12 anos. Alguns anos depois, o projeto teve nova sede, no bairro da Cidade dos Funcionários. Meus irmãos já faziam parte desse projeto, no próprio atletismo. As conquistas deles como, viagens e medalhas, me despertou o interesse em fazer parte desse grupo, porque eu tinha um sonho de andar de avião. Então, foi aí que acabei iniciando no atletismo. Os treinos eram bem puxados, porque eu não tinha experiência e condicionamento, então sofria pra caramba (risos).

Frisson: Quando e como foram suas primeiras competições? 

Vanilson Neves: A minha primeira competição foi uma corrida no Bairro do Dias Macedo, que tinha cerca de 7/8k. Para mim, foi uma eternidade. Eu tinha zero experiência com a corrida, sai igual um cavalo paraguaio liderando a corrida por alguns metros e achei o máximo. Paguei o preço no final, sendo um dos últimos (risos). Eu entendi o recado, que não deveria ter saído tão rápido daquele jeito. Mas foi divertido, ganhei uma medalha de participação e fiquei mega animado com a próxima corrida.

Na temporada seguinte, com um pouco mais de experiência, fiz minha primeira viagem fora de Fortaleza. Fui correr a Corrida Padre Cícero, em Juazeiro do Norte, no Ceará, cerca de 600k da Capital. Fiquei mega feliz com a viagem. Isso para mim era empolgante, estar saindo da minha cidade para correr. Na mesma temporada, participei de uma competição escolar, que era seletiva para o Campeonato Brasileiro Escolar, para até 14 anos. 

Venci a distância de 1.000m e fui representar o Ceará na competição, que foi realizada na cidade de Poços de Caldas, em Minas Gerais. Eu fiquei mais empolgado em viajar de avião, que era um grande sonho, do que com a própria competição. Fiquei em 16/18º geral, achei o máximo, mas sabia que poderia ter ido melhor. Então, resolvi me dedicar ainda mais para a temporada seguinte, pois poderia participar novamente desta competição. 

No ano seguinte, fui novamente convocado para representar o Ceará na mesma competição e fiquei em 5º lugar geral. Eu tive uma temporada sólida, e passei a me destacar nas competições estaduais, interestaduais e nacionais.  

Frisson: Você foi para São Paulo com 17 anos; Já tinha o objetivo de seguir como corredor na época? 

Vanilson Neves: No final dos meus 16 anos, o Alfredo Bessa, que é amigo da minha ex-treinadora na época, Conceição Nery (que foi uma das melhores corredoras do estado do Ceará), agenciou meu teste no Esporte Clube Pinheiros, clube no qual representei por três temporadas. Eu sabia que poderia crescer e que, para que isso pudesse acontecer, eu teria que estar entre os melhores do País. Então, resolvi investir nesse meu sonho. Passei a conviver com os melhores atletas do Brasil, e isso era uma grande oportunidade para mim. 

Na minha primeira temporada representando o EC Pinheiros, fiquei no TOP 10 do País, na categoria Sub 17 e Sub 19 anos. Fiquei entusiasmado com essa minha nova trajetória. Estava crescendo como atleta. Nas temporadas representando o EC Pinheiros, fiquei em 3º lugar no Campeonato nacional e 3º no Ranking Sul Americano, 1º no Ranking nacional na prova de 3.000m com obstáculos. 

Em 2008, por questões pessoais, resolvi me desligar do EC Pinheiros, e passei a me dedicar às corridas de rua. Na época, o clube tinha interesse somente nas provas de pistas, e eu estava com planos diferentes, então segui novos horizontes. Voltei a morar em Fortaleza, participei de diversas corridas de rua, sem clube, dependendo apenas das rendas de pódio. Mas então veio uma lesão que me deixou afastado por alguns meses das corridas, e isso me fez refletir. Precisava ter algo seguro. Passei a pensar numa profissão futura. Veio a ideia de estudar Educação Física. Era algo que eu gostava, estava na minha rotina diária e sempre gostei de ensinar.

Sabia que era algo difícil de fazer, porque não tinha condições de pagar uma faculdade. Aí recebi uma proposta de uma faculdade em São Paulo, com uma bolsa de 100% e não pensei duas vezes. Voltei a morar em São Paulo. Mas, desta vez, com o objetivo de estudar. A corrida ia ficar como segundo plano por quatro anos. E foi exatamente o que eu fiz. Me dediquei exclusivamente aos meus estudos, me formando em Educação Física, nos cursos de Licenciatura e Bacharelado.

Frisson: Você foi o campeão da Disney Marathon. Pode relembrar como foi o sentimento de estar próximo na linha de chegada?

Vanilson Neves: Eu tive um sonho realizado, que foi ser campeão da Maratona da Disney. Me sinto orgulhoso de poder ter alcançado esse grande objetivo. Por dois anos consecutivos, fui 2º colocado geral na maratona (2017 e 2018). Sendo que, em 2017, eu havia participado do Desafio do Dunga, que são quatro dias consecutivos de corrida (5k,10k21k e a maratona, 42,195m). Em 2019, uma semana antes da maratona, eu peguei uma intoxicação causada por alimento. Fiquei internado por quatro dias em um hospital em Orlando. Sem condições de correr, retornei ao Brasil e fiquei algumas semanas até me recuperar. 

Conquistar essa vitória na maratona da Disney tem um significado muito especial para mim por toda a história que venho construindo ao longo desses anos neste grandioso evento. E essa vitória me trouxe a condição de nunca desistir dos meus sonhos. Durante o período de isolamento social, eu fiquei sem correr, acabei engordando 10kg, e isso foi muito melancólico para mim. Estava vendo minha carreira sendo finalizada. 

Retornei aos treinos, era um novo recomeço, nunca havia chegado naquela situação. Mas estava disposto a mudar e voltar ao cenário de antes. Voltei ao meu nutricionista, Marco Jafet, traçar novos objetivos e ele abraçou os planos. Em poucos meses, começamos a notar os resultados e isso foi me entusiasmando para seguir adiante. 

Em abril de 2021, tinha como alvo a Maratona de La Pampa, na Argentina. Mas, semanas antes do evento, uma nova onda da Covid-19 fechou as fronteiras e fomos impedidos de entrar no país. Essa é uma grande dificuldade que nós, brasileiros, estamos enfrentando. Então procurei um novo alvo: a Maratona de Barcelona, que foi realizada no dia 7 de novembro, com as fronteiras e a vacinação em dia. Tracei essa nova rota. 

Fiquei em 24º lugar geral, na Maratona de Barcelona, numa corrida com diversos atletas de nível mundial, com o tempo de 2h22'54. Com esse tempo finalizei a temporada no TOP 10 (9º Colocado) do País, no ranking de maratona. Uma conquista incrível para mim.

Correr a maratona da Disney 2022 não estava em meus planos. O meu grandioso resultado em Barcelona me motivou para seguir adiante, e vi a minha grande chance de poder conquistar a maratona. 

Foto: Lino Vieira

Frisson: Pode falar um pouco sobre seu preparo físico, alimentação, cuidados diários? 

Vanilson Neves: Meu alvo foi a maratona de Barcelona, então fiz uma preparação sólida e, uma semana após a corrida, eu vi a oportunidade de poder correr a maratona da Disney. Estava dando um espaço de oito semanas entre as duas maratona, algo que nunca havia feito. Normalmente faço duas maratonas na temporada (uma na primavera e outra no outono), e desta vez, as duas eram bem próximas. Empurrei mais algumas semanas de treinamento. Treinar para a maratona da Disney é um grande desafio, porque nas semanas que antecedem a corrida, fica bem nas datas comemorativas entre Natal e Réveillon. 

Eu já havia me programado para passar o Natal com a minha família, então estavam todos ansiosamente esperando esse grande dia. Tive que mudar os meus planos, comuniquei à minha família que não seria possível eu ir por conta da minha maratona. 

Devido esse atual cenário pandêmico, tive que me isolar, com poucos contatos. Por conta da minha viagem, não quis arriscar. Por essa razão, achei prudente não visitar minha família ou amigos. Se alguém tivesse positivo, e eu me contaminasse com o vírus, era o fim para mim. Minha esposa viajou, eu passei o Natal sozinho, em casa, com os meus felinos. Fui dormir às 11pm. No Réveillon não foi nada diferente, minha esposa retornou a São Paulo, e passamos juntos a virada de ano, mas fomos dormir novamente às 23 horas (risos). 

Frisson: Quais são os desafios de ser corredor no Brasil? E quais são seus desafios pessoais? 

Vanilson Neves: Infelizmente, no Brasil, o esporte não é visto como profissão, e o atletismo não é diferente. Não existe uma verdadeira valorização. Não temos uma base. É triste ver o governo valorizando a construção de novos presídios, centro "educacionais" para menores infratores, sendo que os verdadeiros Grandes Centros Educacionais estão sendo desativados. Um exemplo clássico: o projeto que eu comecei mudou de nome, de sede e houve uma redução de cursos profissionalizantes e esportes para a construção de centro "educacionais" para menores infratores. É tipo dar murro em ponta de faca. O esporte salva a vida. Eu busquei algo que sempre sonhei, tive um propósito, mas não é todo mundo que sonha desta forma e na primeira oportunidade. O jovem desiste.

Com esse atual cenário pandêmico, os números de eventos diminuíram, e os desafios aumentaram. Atualmente, eu não dependo exclusivamente da renda das corridas de rua. 

Frisson: Além de ser corredor, você também trabalha em outra profissão? 

Vanilson Neves: Atualmente sou maratonista, TOP 10 do Brasil, proprietário da Assessoria Sub Elite Vanilson Neves, que está localizada no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Nossa plataforma atende corredores do mundo inteiro pelo sistema on-line de treinamento. Minha principal fonte de renda vem do meu trabalho como empresário, mas tenho o alto rendimento, ainda está no sangue, e venho conseguindo fazer grandes resultados. Sou a principal referência na minha empresa. Sou formado em Educação Física pela Unisant'Anna em Licenciatura e Bacharelado, treinador Nível 1 da CPB (Centro Paralímpico Brasileiro). Tenho mais de 20 anos de experiência no segmento running. 

Frisson: Você também mantém alguns recordes pessoais. Qual é o próximo recorde na sua lista? 

Vanilson Neves: Meus recordes pessoais são:

1.500m - 4'00'

3.000m - 8'41'

3.000m com obstáculo - 9'16'

5.000m - 15'15'

10.000m - 31'39'

5k - 14'50'

10k - 30'57'

21,097k- 1h07'28

42,195k - 2h20'25

*As distâncias terminadas em metros, refere-se às corridas em pista e as terminadas em k, são corridas de rua. 

Meu principal objetivo desta temporada é tentar quebrar meus recordes pessoais nos 10k e 21k, no segundo semestre da maratona. Meu sonho é correr uma maratona Sub 2h20'. Estou muito próximo disso. 

Frisson: Quais conselhos você dá para pessoas que desejam começar a correr?

Vanilson Neves: O início é sempre mais difícil. É preciso ter paciência e seguir firme no processo de treinamento. Levei anos para chegar nesse nível atlético de hoje, passando por altos e baixos. Dificuldades irão estar sempre presente. Não se pode querer jogar a toalha logo na primeira dificuldade encontrada, tem que seguir firme que os resultados irão vir. Seja persistente e nunca desista de você.

Frisson: Que outros esportes você pratica ou já praticou? Há algum que ainda deseja experimentar?

Vanilson Neves: Não faço outros esportes, mas tenho admiração por vários como surfe, judô, aikidô, triatlo e o futebol. Talvez quando finalizar a carreira como atleta me aventuro em alguma dessas modalidades (risos). 

Frisson: Além da corrida, que outros talentos e hobbies você mantém? 

Vanilson Neves: Gosto de tudo um pouco. Durante o início desse atual cenário pandêmico, passei a viajar em áreas diferentes com a área do marketing digital, edições de vídeos e fotografia. Sou fascinado por essa área digital. Atualmente, é algo essencial para o crescimento de uma empresa. Deu certo porque tive um crescimento nas minhas redes sociais, levando mais conteúdos para os meus seguidores, da minha assessoria... Também sou um apaixonado por hambúrgueres artesanais, e às vezes me aventuro a fazer, mas não posso fazer sempre, porque um dia a conta chega e meu nutri me mata (risos).

Frisson: Quais são seus objetivos em 2022?

Vanilson Neves: Pretendo melhorar meus recordes pessoais nas distâncias de 10k e 21k no primeiro semestre e, no segundo, investir numa maratona em busca do tão sonhado Sub 2h20. Eu sei que estou muito próximo desse sonho. 

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