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Diretor cearense e criador do Cine Ceará, Wolney Oliveira fala sobre fazer cinema no Brasil

Wolney é criador do Festival Iberoamericano de Cinema (Cine Ceará), que inicia sua 31ª edição neste sábado, 27, e segue até o dia 3 de dezembro, com competições, homenagens e exposições

Foto: Lino Vieira

Um dos grandes nomes do cinema cearense, Wolney Oliveira é conhecido por assinar filmes como “Sabor a MI” (1992), “O Milagre Em Juazeiro”(1999) e “A Ilha da Morte” (2006). Articulador cultural, Wolney ainda é criador do Festival Iberoamericano de Cinema (Cine Ceará), que inicia sua 31ª edição neste sábado, 27, e segue até o dia 3 de dezembro, com competições, homenagens e exposições.

Mas a história de Wolney começou antes mesmo de iniciar sua faculdade de Cinema na Escola Internacional de Cinema e Televisão de San Antonio de los Baños, em Cuba, Seu pai, o cineasta Eusélio Oliveira, já tinha lhe mostrado as maravilhas da arte e do cinema.

Wolney, que também é diretor da Casa Amarela Eusélio Oliveira da Universidade Federal do Ceará, conversou com a Frisson sobre sua trajetória, seus orgulhos e sua opinião sobre a situação do mercado cinematográfico no Brasil, que passa por desmontes e acusações de censura por parte da própria Ancine. Confira a entrevista completa: 

Frisson: Você escolheu o cinema como profissão. Como foi o processo de escolher o segmento e crescer nele em um país onde as artes são pouco valorizadas, principalmente financeiramente?

Wolney Oliveira: Eu me aproximei do cinema graças ao meu saudoso pai, professor e cineasta Eusélio Oliveira, que foi meu professor de cinema e foi quem primeiro me incentivou a trabalhar com audiovisual. Antes de chegar no cinema propriamente dito, eu comecei minha carreira na sétima arte fazendo fotografia fixa, fazendo still para cinema e depois evoluindo para o cinema. Então tem muito a ver com herança familiar. Eu sou formado em administração de empresas pela UECE, depois fiz o curso de cinema e percebi que dirigir o filme é como gerenciar uma empresa, a gente tem que lidar com recursos humanos, administrar os recursos financeiros e lidar com trâmites burocráticos. Além de cineasta, também sou diretor da Casa Amarela Eusélio Oliveira da Universidade Federal do Ceará.

Frisson: Você já dirigiu e produziu diversos filmes, como “O Milagre em Juazeiro” e “Sabor a Mí”. Mas qual das produções você mais se orgulha?

Wolney Oliveira: Até o momento tenho no meu currículo 5 longas-metragens dirigidos e produzidos por mim. Na realidade eu tenho duas produções das quais eu tenho mais paixão e orgulho que são “Os Últimos Cangaceiros”, que foi o meu filme de maior repercussão nacional e internacional, sendo exibido em mais de 50 países, ganhando 8 prêmios no Brasil e no exterior. Também tem o “Soldados da Borracha”, que recentemente conquistou seu 14º prêmio. Inclusive no dia 10 de novembro vamos receber das mãos do Arcebispo de Fortaleza, Dom José Antônio Tosi, o troféu Margarida de Prata, na categoria cinema longa-metragem, do 53º Prêmio de Comunicação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que é um dos prêmios mais importantes do Cinema Documentário Brasileiro. Claro que tenho carinho por todos, mas esses dois são os meus preferidos.

Frisson: Seu último filme como diretor foi o documentário “Os últimos cangaceiros”, de 2011. Alguma nova produção à vista que deva voltar como diretor? Se não, como alguma outra área do cinema?

Wolney Oliveira: Na realidade meu último filme como diretor não foi os “Os Últimos Cangaceiros”, meu último filme é “Os Soldados da Borracha”, que é o filme pelo qual vou receber o troféu Margarida de Prata de melhor longa-metragem do Prêmio de Comunicação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). A premiação foi criada em 1967 e grandes nomes do cinema brasileiro já tiveram seus trabalhos reconhecidos pela CNBB, como Paulo Gil Soares, que foi o agraciado na 1ª edição da premiação, quando o prêmio era outorgado junto ao Festival de Brasília. Ele recebeu o troféu pelo clássico “Proezas de Satanás na Vila do Leva-e-Traz”. Também foi agraciado com o troféu Margarida de Prata (da CNBB), o diretor Silvio Tendler do filme “Os Anos JK - Uma trajetória política", um documentário brasileiro de 1980. No filme, o diretor traça o complexo painel político do país, ao mapear episódios entre as décadas de 1940 e 1970. Sucesso de público e junto à sociedade oprimida, exaltou o ideal democrático representado na figura de Juscelino Kubitschek. 

No momento estou finalizando o longa metragem documentário “Memórias da Chuva”, que é resultado de um prêmio da Secretaria da Cultura do Ceará, através da Lei Aldir Blanc. A ideia é que esta nova produção seja lançada em 2022.

Frisson: “O Milagre em Juazeiro” é um dos seus filmes mais premiados e fala de um tema genuinamente cearense. Como a cultura do Estado é representada em seu filme?

Wolney Oliveira: “O Milagre em Juazeiro” também foi um filme que recebeu vários prêmios no Brasil e Exterior, é o meu primeiro longa-metragem, é um filme de um gênero difícil, o docudrama, ou seja, um gênero híbrido que se divide entre o documentário e a ficção. Eu sempre fui apaixonado pela cultura popular, pelo cordel, pelas histórias do Padre Cícero e da Beata Maria de Araújo, daí a minha ideia para fazer “O Milagre em Juazeiro”. Trago todo esse meu interesse pela história na narrativa do filme, que apresenta várias vertentes da cultura cearense. A história do milagre se firmou com um momento importantíssimo para o Ceará, que é o surgimento da devoção religiosa ao Padre Cícero. Padre Cícero foi um grande marco para o desenvolvimento da cidade de Juazeiro do Norte e Região do Cariri Cearense. “O Milagre em Juazeiro” é o primeiro filme que conta a história do milagre cuja figura central não é Padre Cícero, mas sim a Beata Maria de Araújo. No filme essa história é contada pelo ponto de vista da mulher. Uma mulher negra, analfabeta e pobre. Claro que Padre Cícero tem um papel fundamental na narrativa, mas o filme se propôs a fazer um resgate da história e participação da beata, que é pouco conhecida. A experiência das filmagens e a relação intensa que estabeleci com as romarias me fez devoto do Padre Cícero e da Beata Maria de Araújo.

Frisson: Quais elementos você destaca que sejam sua marca e identidade como diretor?

Wolney Oliveira: Eu acho que meus filmes costumam trazer histórias de pessoas que não tiveram a possibilidade de terem suas vozes ouvidas quando a história acontecia e suas vidas eram afetadas por fatos históricos. A começar pelo caso da Beata Maria de Araújo, que data do final do século XVIII, em que a igreja não só a silenciou, mas desapareceu com seus restos mortais. Da mesma maneira eu me relaciono com os Soldados da Borracha, que é uma história que ninguém conhecia, então eu trato de oferecer visibilidade a vozes menos favorecidas, digamos assim, e eu trato de resgatar essas histórias. Foi assim em “O Milagre em Juazeiro”, foi assim nos “Soldados da Borracha”, da mesma maneira que também vai ser no “Memórias da Chuva”. Então eu trato de resgatar histórias que foram levadas ao esquecimento.

Frisson: Você é o criador do Cine Ceará. Como foi sua primeira edição e como ela é comparada ao que é hoje?

Wolney Oliveira: A semente do Cine Ceará, a “Vídeo Mostra Fortaleza”, foi meu pai quem plantou, em 1991, quando eu estava estudando cinema em Cuba. Ao retornar para o Ceará eu tratei de regar essa semente e transformei ela numa árvore frondosa, que é o Cine Ceará. Logo mais, no período de 27 de novembro a 03 de dezembro, realizamos sua 31ª edição. O evento é um dos principais festivais de cinema do país ao lado de eventos como Festival de Gramado, Festival de Brasília, e que muito nos orgulha. Não é fácil viabilizar um evento como o Cine Ceará porque é um evento de peso, caro, que só é possível ser viabilizado através de parcerias importantes como o Governo Federal através da Secretaria Especial da Cultural, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, o Governo do Estado do Ceará através da Secretaria da Cultura, da Universidade Federal do Ceará através da Casa Amarela Eusélio Oliveira, da Prefeitura Municipal de Fortaleza, e de grandes parceiros, como o Banco do Nordeste, a Nacional Gás, a Indaiá, a Cagece, a SP Combustíveis, a Cegás, e a Piraquê, ou seja, um conjunto de grandes empresas que estão aqui no nosso estado. Então, realizar um evento no estado como o Ceará, que ainda é um estado pobre, durante 31 anos seguidos não é fácil. A minha primeira edição do festival na realidade foi em 1993, quando eu realizei o 3º Vídeo Mostra Fortaleza, em 1994 continuei no comando e a partir de 1995 o festival passa a ser nacional, ou seja, o que começou como uma mostra local passa a ser uma mostra competitiva nacional, e aí vem o nome Cine Ceará, que cresce com a proposta de projetar nacionalmente o nosso estado e suas produções audiovisuais.

Frisson: O Cine Ceará já começa esse mês. Quais são os destaques da programação? O público pode esperar alguma surpresa?

Wolney Oliveira: O Cine Ceará vai ser realizado de 27 de novembro a 03 de dezembro. O festival conta com a já tradicional Mostra Ibero-americano de Cinema, que neste ano exibe 6 longas, todos inéditos no Brasil e alguns realizando sua Première Mundial. Dentre eles destacamos duas produções 100% cearenses, “Fortaleza Hotel", de Armando Praça, que é o segundo longa do diretor. Armando Praça ganhou o troféu Mucuripe de Melhor Longa Ibero-americano em 2019 com “Greta”, seu primeiro longa. O outro filme cearense competindo na categoria é do Petrus Cariry, com seu novo longa “A Praia do Fim do Mundo”. O Petrus também já tem uma carreira com o festival, participando do Cine Ceará com os longas “O Barco” e “Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois”. Em 2011, ele foi o grande vencedor da 21ª edição com o longa-metragem “Mãe e Filha”. Outro destaque é a Mostra “Olhar do Ceará”, dedicada exclusivamente a filmes cearenses. Neste ano teremos 20 filmes competindo, 17 curtas e 3 longas. Além disso teremos como homenageados dois cearenses, a atriz, cantora e compositora, Marta Aurélia, e o diretor de cinema Halder Gomes, idealizador e diretor do super sucesso Cine Holliúdy. Portanto é um ano do Cinema Cearense, que é bom que se diga, é uma das principais cinematografias do país e que vem conquistando prêmios importantes no Brasil e Exterior.

Frisson: Em uma entrevista em 2020, o senhor falou que não era fácil manter um festival de cinema por 30 anos no Nordeste. Pode explicar quais são essas dificuldades?

Wolney Oliveira: Não é fácil manter um evento do peso, porte e tamanho do Cine Ceará por 31 anos seguidos. A principal dificuldade é sem dúvidas viabilizar a captação de recursos para a execução do projeto. No momento estamos enfrentando uma crise política e econômica muito dura no país e essa instabilidade reflete na captação junto às empresas. Então, a cada ano fica mais difícil viabilizar patrocínio. Essas empresas que citei anteriormente, como a Piraquê, a Nacional Gás, a Indaiá, a Esmaltec, a Cegás, o Banco do Nordeste, a SP Combustíveis, a Enel, que também apoia o evento desde 1996, o Governo do Estado do Ceará, a Universidade Federal do Ceará através Casa Amarela Eusélio Oliveira e da Prefeitura de Fortaleza, sem essas parcerias, não seria possível manter o evento com tanta vitalidade e permanência, fazendo do Cine Ceará um dos principais festivais de cinema do país.

Frisson: Quando pensamos no Estado do Ceará, como são os incentivos à cultura, principalmente o cinema?

Wolney Oliveira: Apesar do Ceará ser um dos primeiros estados a ter criado uma lei de Mecenato Estadual, ainda no Governo Tasso Jereissati, que fez um grande trabalho na área cultural. Na época em que foi criada, em 1995, a lei foi batizada de Lei Jereissati, em 2006 ela passou por uma reformulação que foi muito ruim e piorou a lei. Hoje, finalmente, a Secretaria da Cultura do Ceará está colocando uma nova reformulação da lei em pauta principal de discussão. Apesar de ser a principal financiadora do Ceará, ela tem inúmeros problemas que precisam ser corrigidos e é muito bom que o Secretário da Cultura do Ceará, o Fabiano Piúba, esteja colocando essa lei para ser discutida e reformulada. Da maneira que a lei está hoje o nosso fomento a cultura permanece frágil. O Governador Camilo Santana, que está fazendo um grande governo em várias áreas, inclusive na cultura, já falou do interesse em criar a Ceará Filmes, que seria a terceira empresa do país que cuidaria da produção audiovisual em âmbito estadual ao lado da Rio Filmes e SP Cine. Acho que o que falta no Ceará é justamente tratar o cinema, principalmente o cinema de longa-metragem que é o que mais emprega, como uma indústria. Essa vontade que o governador tem de criar a Ceará Filmes é muito bem-vinda e nós estamos na torcida para que ele crie essa empresa antes dele se descompatibilizar do cargo, porque ao que tudo indica nas próximas eleições ele será candidato ao Senado Federal. Por este motivo ele teria até o dia 2 de abril de 2022 para criar a empresa. Também estamos na expectativa de que ele crie uma Lei do Mecenato Estadual do Audiovisual. Ainda que se fale muito em economia criativa, que é fundamental para várias linguagens, a linguagem que estabelece com indústria mesmo é a do cinema. O Audiovisual Brasileiro tem a Agência Nacional de Cinema (Ancine), como existe uma agência da água, como têm agências de outros setores. A atividade do audiovisual precisa ser encarada como uma atividade econômica, uma indústria. Portanto, seria um grande avanço o Governador Camilo Santana realizar essas duas iniciativas, ou seja, que a criação da Ceará Filmes e viesse junto com a criação de uma Lei Estadual de Incentivo ao Audiovisual, como Pernambuco tem, como Minas Gerais tem, como outros estados têm.

Frisson: O cinema, assim como outras artes, conseguem dialogar com o cenário socioeconômico e político de um tempo ou uma região. Como tem sido esse diálogo em relação ao Brasil?

Wolney Oliveira: Creio que o cinema é uma ferramenta poderosíssima para dialogar com o cenário socioeconômico e político de um tempo ou uma região. Infelizmente eu acho que o governo precisa focar, e quando eu falo de governo eu falo do Governo Federal, o governo precisa focar no discurso econômico e ter como parâmetro o impacto financeiro positivo que a indústria audiovisual brasileira oferece a economia do país, que até 2018 empregava mais do que a indústria de celulose e a indústria farmacêutica. Mas nós estamos num cenário de 3 anos sem editais e existe uma cobrança muito grande das entidades do cinema brasileiro para que sejam anunciados esses editais. Recentemente a Ancine anunciou que até o final do ano será lançado um edital de 470 milhões de reais, edital este que será fundamental para alavancar a produção da indústria audiovisual brasileira. Nós estamos na torcida que este edital realmente seja lançado porque isso vai viabilizar milhares de empregos no país. É importante também que as pessoas entendam como acontece o financiamento do cinema brasileiro. O cinema brasileiro não é financiado pela Lei Rouanet, muitas pessoas misturam as bolas. O cinema brasileiro é financiado com uma Condecine, Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional, que é uma Cide, ou seja, um tributo que conta com a contribuição do próprio setor. Qualquer propaganda que você ver na televisão, filme exibido nos cinemas, essas produções recolhem uma Condecine para a Ancine. É essa contribuição que move a indústria audiovisual brasileira. O Governo Federal arrecada por volta de um bilhão e trezentos reais ao ano. Até 2018 metade desse montante era contingenciado e a outra metade era liberada para investimentos nas produções audiovisuais brasileiras que circulavam nas janelas de cinema, televisão e web. Portanto, é importante que se saiba que a própria atividade audiovisual, o próprio setor é que gera recursos para que a roda gire. Mas devido a desinformação que circula nas redes sociais, as pessoas confundem o financiamento da produção de cinema com a Lei Rouanet, que cuida de outras áreas. A Lei Rouanet não cuida da indústria audiovisual do cinema.

Frisson: O cinema brasileiro passa por momentos de crise, principalmente com denúncias feitas à Ancine e com crises como a da Cinemateca Brasileira. Como você enxerga essa situação?

Wolney Oliveira: Eu vejo isso com muita tristeza. Eu vi na TV as labaredas da Cinemateca Brasileira com muita tristeza. Não foi falta de aviso. Várias entidades alertaram para o risco de incêndio na instituição, e foi o que infelizmente aconteceu. O que eu acho em relação a Ancine e em relação ao Governo foi o que falei anteriormente, é necessário que se enxergue a produção cultural e a indústria audiovisual como um patrimônio nacional de grande potencial econômico. Todas as linguagens e todas as produções têm seus méritos culturais e público consumidor. É papel do estado trabalhar para que as empresas que tenham capacidade técnica de executar seus projetos tenham acesso a fontes de financiamento e tenham condições de fazer suas obras chegarem ao público. A cultura gera empregos e dignidade para milhares de brasileiros. Ao que tudo indica a Ancine vai reativar a abertura dos editais. A previsão é de que até o ano que vem nós vamos ter um edital de quase 1 bilhão de reais. Um edital de 470 milhões foi anunciado há dois meses pela Ancine, mas as inscrições ainda não foram abertas para as empresas apresentarem suas propostas. Dizem que em janeiro de 2022 há uma expectativa de que a Ancine irá lançar um terceiro edital no valor aproximado de 500 milhões de reais. Mas voltando a frisar, esse dinheiro não é renúncia fiscal, este dinheiro são valores gerados pela própria atividade do audiovisual brasileiro. Também é importante dizer que até 2018 o setor era responsável por quase 1% do PIB do nosso país. Hoje a situação é que muita gente que trabalhava com cinema está sendo obrigada a mudar de profissão, e em muitos casos fazendo trabalhos com remuneração mais baixa e jornadas mais exaustivas, isso tudo porque a indústria audiovisual desacelerou seu ritmo. Dada a situação, os recursos gerados pelo setor precisam voltar a financiar o audiovisual para ajudar a economia do país girar e melhorar a vida dos brasileiros.

Frisson: Acredita que o cinema pode ser uma resposta ao momento que vivemos hoje?

Wolney Oliveira: O cinema já é uma resposta ao momento que vivemos hoje. Acabou de ser lançado comercialmente o filme Marighella, dirigido pelo Wagner Moura, que é um filme essencialmente político, mas é um filme que faz um recorte biográfico de um personagem que faz parte da história do país. Pode ser que muita gente não o considere um personagem importante, mas ele teve seu lugar na história do país, e para muitos ele é a representação de uma luta por um país mais justo. Há muitos olhares sobre um mesmo personagem histórico. Não vou julgar o mérito do filme porque eu ainda não vi, mas a repercussão tem sido muito boa. Outro exemplo bem particular é a história dos Soldados da Borracha, um tema que eu só fui conhecer aos 40 anos. Isso foi há 21 anos. Ainda hoje, se você perguntar a muita gente que tem um bom nível escolar, eles não conhecem a história. Agora, por causa da repercussão do filme, a história ficou um pouco mais conhecida. Mas a maioria da população brasileira não sabe quem foram os Soldados da Borracha. Esse desconhecimento é muito ruim porque pode levar as pessoas a serem vítimas de algo parecido com o que aconteceu com esses nordestinos que foram levados para a Floresta Amazônica com a promessa de fazer fortuna nos seringais, mas que já na viagem até a floresta tiveram de sobreviver a uma viagem insalubre e a febre amarela. Muitos não resistiram e morrem no meio do caminho. Os que chegaram lá só encontraram exploração e miséria. Elas foram submetidas a trabalho análogo a escravidão e depois abandonadas pelo governo brasileiro de Getúlio Vargas. Apenas na Constituinte de 1988 foi que eles tiveram um pequeno reconhecimento. Através do cinema essa história do nosso passado recente pôde ganhar mais visibilidade. Então eu acho que sim, eu acho que o cinema pode dar uma resposta ao momento que nós estamos vivendo, até porque o cinema é imagem e voz, assim tudo que estamos vivendo hoje também ficará registrado. O cinema tem um peso social muito grande e tem um peso de transformação social muito grande.

Frisson: Como o senhor definiria o cinema e qual o seu propósito para a sociedade?

Wolney Oliveira: Eu vejo o cinema como uma oportunidade de contar histórias que podem comover as pessoas de alguma maneira, fazendo rir ou chorar. Na minha visão um bom filme tem que me deixar arrepiado, me fazer chorar e também me fazer rir, o riso é um grande remédio. E um dos maiores propósitos do cinema é jogar luz às histórias que estão escondidas.

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