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Presidente da Unimed Fortaleza e criador do slogan “Vai Dar Certo”, Elias Leite analisa a pandemia

O médico e gestor conversou com a Frisson sobre sua história, sua visão sobre a pandemia e as mudança na sociedade causadas por ela

Foto: Divulgação

Criador do slogan “Vai dar certo” e um dos nomes do combate à Covid-19 no Ceará, o doutor Elias Bezerra Leite, presidente da Unimed Fortaleza, ficou conhecido por divulgar diariamente a situação da pandemia pelo plano de saúde. A popularidade cresceu e o modo de se comunicar virou referência para líderes em momento de crise. 

O médico otorrinolaringologista trabalhou no Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Ceará e, desde 2018, atua como presidente da Unimed. Otimista, recentemente celebrou em sua conta de Instagram a marca do Hospital Regional da Unimed, que zerou o número de pacientes internados com Covid-19 pela primeira vez desde o começo da pandemia. 

O médico e gestor conversou com a Frisson sobre sua história, sua visão sobre a pandemia, variante Delta, gestão pública na saúde e as mudança na sociedade. Confira: 

Frisson: Pode explicar sua trajetória até chegar a ser presidente da Unimed Fortaleza?

Dr. Elias Leite: Eu sou médico otorrinolaringologista. Me formei com 25 anos de idade, terminei a residência com 28, e a partir daí comecei a exercer a profissão. Eu era médico concursado do Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Ceará e sócio da Clínica Otorhinos – posição que ainda ocupo. Nesse período, eu comecei a estudar gestão e, pouco tempo depois, passei a participar da Cooperativa de Otorrinolaringologia do Estado do Ceará, até que no final de 2013, fui convidado para fazer parte da chapa de oposição, liderada pelo Dr.João Borges, concorrendo ao cargo de diretor comercial da Unimed Fortaleza. Nós ganhamos a eleição e encontramos a Unimed Fortaleza em uma situação bem difícil, mas iniciamos um trabalho de recuperação da cooperativa. Nesse período, ao entrar na Unimed Fortaleza, eu vi que realmente queria trabalhar com gestão de pessoas e empresas. Por volta dos meus 40 anos de idade, decidi parar definitivamente o exercício da Medicina para me dedicar à gestão. Eu digo que eu deixei de ser médico de ouvido, nariz, garganta e laringe e passei a ser médico de pessoas e empresas. Como tivemos um primeiro mandato com bons resultados, no começo de 2018 fui eleito presidente da Unimed Fortaleza, onde ainda estou e encerro meu mandato em fevereiro de 2022, se Deus quiser. 

Frisson: O senhor diariamente faz vídeos explicando a situação da Covid-19 da Unimed. Como surgiu essa ideia e como observou a recepção dos seus seguidores?

Dr. Elias Leite: Eu sempre acreditei que a comunicação é um dos principais elementos que um líder pode utilizar para conseguir engajar as pessoas. Na Unimed Fortaleza, eu já tinha criado um projeto chamado “Minuto com Elias”, em que toda segunda-feira eu mandava um vídeo curto de um ou dois minutos para os colaboradores, sempre com algum tema de liderança, autodesenvolvimento ou algo para motivar e ajudá-los no seu dia a dia. Quando começou a pandemia, eu percebi que estava todo mundo sem entender muito o que estava acontecendo. Tem uma frase que eu não sei de quem é, mas que eu gosto muito, que diz: “se você está entendendo tudo que está acontecendo, é porque não está prestando atenção”. Ou seja, estávamos em um momento muito difícil, com as pessoas estavam em pânico, sem saber o que estava acontecendo. Então, como eu estava na linha de frente de uma empresa operadora de plano de saúde, eu vi que tinha que informar o que estava acontecendo, o que nós estávamos fazendo, o que estávamos esperando, enfim, atualizar com informações sérias, verdadeiras e imparciais sobre a situação daquela guerra que estávamos vivendo. Foi aí que eu comecei a mandar vídeos para os colaboradores e médicos cooperados, só que eles começaram a compartilhar esses vídeos com outras pessoas e acabou viralizando em Fortaleza e no Estado do Ceará, e depois por vários outros lugares do país. As pessoas passaram a ver esses vídeos como uma informação na qual poderiam confiar e um norteador para tentar entender o que estava acontecendo naquela situação. Como consequência, passei a ter bem mais seguidores nas redes sociais. Como exemplo, antes da pandemia, tinha por volta de 10 mil seguidores no Instagram e, rapidamente, passei a ter mais 50 mil. Nos grupos de WhatsApp há muitas pessoas que me abordam e pedem mais informações. Enfim, foi uma forma que encontrei de ajudar as pessoas naquele momento difícil. 

Frisson: Você foi um dos grandes nomes do enfrentamento da pandemia com o lema “Vai dar certo”. Por que acha que esse lema de otimismo responsável teve grande impacto? 

Dr. Elias Leite: Nós não escolhemos entrar nessa situação que estamos vivendo, mas nós podemos escolher a forma como lutaremos. As pessoas estão em uma situação muito difícil, todos nós conhecemos pessoas que morreram, alguns perderam entes muito próximos. Eu percebi que as pessoas precisavam de uma força para continuar lutando, porque nós precisamos sair dessa guerra vivos. Nós estávamos fazendo tudo que podíamos: investindo todo esforço e trabalho, criando uma estrutura de atendimento que atendesse aos nossos clientes da melhor forma possível. Pra mim ficou muito muito claro, já que estávamos fazendo isso, nós tínhamos o direito de dizer que iria dar certo. É o que chamo de otimismo responsável. É diferente de você fechar os olhos, cruzar os braços e dizer que vai dar certo só porque você quer que seja assim. Eu acho que o “Vai dar Certo” se tornou um grito das pessoas dizendo que não aguentam mais brigas, rachas políticos, que acabaram ficando à frente do grande objetivo que é salvar vidas. 

Frisson: Em meio à crise, quais foram as grandes dificuldades que o senhor passou como líder da empresa?   

Dr. Elias Leite: Eu acho que a maior dificuldade foi conseguir aumentar a estrutura da Unimed Fortaleza para não deixar de atender a quem precisasse. Aliás, esse sempre foi meu maior medo, não conseguir atender a quem necessitasse, por falta de leitos para internação. Felizmente, conseguimos dar conta, com muita dificuldade, mas conseguimos atender. O nosso hospital, que originalmente tem 338 leitos, chegou a ter 570 leitos. Outra dificuldade foi a falta de pessoas para serem contratadas. Outra questão que doeu, e continua doendo bastante, foi ver pessoas colocarem as questões políticas e ideológicas à frente do que deveria ser o objetivo maior: salvar vidas. A situação era provar que a opinião delas não estava correta, e tínhamos que ter muito foco para não deixar atrapalhar nossa missão. Mas conseguimos superar isso. Eu acho que o fato de não termos dado atenção às polêmicas foi fundamental para nós.

Frisson: A pandemia enfrenta um novo problema: a variante Delta. Como o senhor observa os perigos dessa variante? Analisa que ela poderá se tornar um problema e uma potencial terceira onda? 

Dr. Elias Leite: Certamente não dá para descartar a possibilidade de uma terceira onda, que pode ser com a variante Delta ou com qualquer outra variante que apareça. Pessoalmente, eu acredito muito no efeito da vacinação e tenho muita esperança que, com a quantidade de pessoas vacinadas aumentando, isso reduza os impactos de gravidade da doença nos pacientes que venham a ser acometidos daqui para a frente. Não dá para dizer se é o tipo de doença que tem que ter vacina todo ano, como acontece por exemplo com gripe. Eu imagino que sim, mas o que é certo é que hoje nós já conhecemos bem mais a doença. Não dá para descartar uma terceira onda, mas eu continuo acreditando que, mesmo que ela venha, não vai ser tão intensa como a segunda onda.

Frisson: Como o senhor analisa o enfrentamento da pandemia no Ceará?

Dr. Elias Leite: Acredito que gerir uma cidade, um estado, um país é algo muito difícil. Como eu disse, eu sempre foquei minha atenção na Unimed Fortaleza e no que poderíamos fazer. Eu sempre acredito na boa intenção das pessoas. É óbvio que algumas vezes você discorda de algumas ações, mas no contexto geral eu sempre acredito que as pessoas têm boas intenções e que é muito difícil você estar à frente de uma gestão pública. As pessoas fizeram o máximo que elas puderam, embora você possa concordar ou não. Mas acredito que os gestores que estão à frente tiveram a intenção de tentar resolver isso da melhor forma possível, da maneira como eles achavam que era a maneira mais adequada para aquele momento, em todas as esferas: municipais, estaduais e federal.

Frisson: O Brasil, principalmente São Paulo, caminha para um retorno sem restrições. Como o senhor analisa esse retorno? Já estamos seguros para ele?

Dr. Elias Leite: Acho que de uma forma geral a população está ansiosa demais para voltar à situação mais próxima da normalidade. Eu acredito que ainda tem que se ter cuidado. Não dá para baixar a guarda, não dá pra livrar as pessoas do convívio social, mas não dá para tirar todas as regras, principalmente a questão do uso de máscara, que é bem importante em ambientes fechados e aglomerados. Eu acredito que temos que colocar na balança os fatos. Não podemos sacrificar também a economia. Porém, eu tenho muito medo dessa liberação total ainda. Então eu prefiro manter um certo cuidado, temos que pensar também na questão econômica, que está muito sofrida há quase dois anos.

Frisson: Como acredita que a pandemia irá mudar o mundo e o Brasil em relação à saúde? 

Dr. Elias Leite: Por mais difícil que esse momento esteja sendo, é também um momento muito rico de aprendizado e aceleração de coisas e de decisões que demoraríamos a tomar. Quantas empresas, por exemplo, nem cogitavam trabalhar no Home Office ou modelo híbrido, e de uma hora para a outra tiveram que evoluir em tecnologia e comunicação. Enfim, na saúde também muita coisa foi aprendida e muita coisa foi utilizada. O que eu acho que fica como grande aprendizado é que as instituições de saúde são importantíssimas. Elas não podem ser menosprezadas, tanto no setor público quanto no setor privado. Há que se fazer um redimensionamento, por exemplo, da quantidade de leitos de UTI no país e a telemedicina, na minha opinião, é um caminho sem volta. 

Frisson: E como o senhor analisa a mudança da sociedade? Haverá a permanência do otimismo responsável?

Dr. Elias Leite: Muitas vezes nós ficamos esperando que a sociedade mude como um todo, mas esquecemos que somos parte da sociedade e que a mudança de cada um é parte fundamental. Nós estamos tendo uma oportunidade muito grande de repensar nossas prioridades e redefinir os valores que são verdadeiramente importantes e que deixamos de lado por várias vezes. Nesse momento, eu acredito que muita gente vai mudar para melhor. Infelizmente, há muitas pessoas se aproveitando do momento para explorar, para tirar vantagem de empresas ou de pessoas que estão sofrendo e estão assustadas, mas por outro lado, acompanhamos pessoas desenvolverem o altruísmo. Tivemos a chance de ver a importância de você ter contato com as pessoas que você ama, abraçar e beijar, visitar o pai, a mãe, uma pessoa querida. Então, se parte está melhorando e parte não, no total, a sociedade vai melhorar, sim. Quanto ao otimismo responsável, com certeza muitas pessoas compraram a ideia e passaram a ver a vida por um lado mais positivo. Essas pessoas usarão isso daqui para a frente, principalmente para enfrentar os seus problemas nas situações difíceis. Eu, com certeza, já tentava fazer isso e agora mais do que nunca passei a praticar o otimismo responsável na minha vida. Quando estiver em momento difícil, vou lembrar das vezes que eu entrei no hospital de campanha, das vezes que vi pacientes intubados em situação crítica. Enfim, vou lembrar disso e lembrar que nós conseguimos vencer. Eu acho que se nós focarmos nessa forma de pensar, com certeza VAI DAR CERTO!!!.


 

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