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Pioneiro da infogravura no Ceará, Sérgio Helle fala sobre exposição em cartaz e arte na pandemia

Com cores e sentimentos, além de inspirações na natureza, Sérgio Helle se dedica às artes há oito anos e carrega uma série de experiências, não só em suas pinturas, mas nas palavras

Foto: Lino Vieira

"A arte é um elo entre indivíduos que se identificam; uma conexão em códigos e linguagens somente decifráveis, mesmo que em parte, por quem comunga de um mesmo dialeto ao exercê-la ou apreciá-la". Com mais de 25 anos de carreira e um nome já conhecido nacionalmente, Sérgio Helle, desde criança, já sabia que seria artista. Nascido no Cariri, Helle participou da sua primeira exposição em 1980, em um salão com diversos outros artistas, mas foi na década de 1990, quando descobriu a infogravura, que realmente se encontrou como artista. Sendo o grande nome por trás das exposições "Acqua" e "Paradisus", o pintor revive os últimos sete anos na exposição "Águas de Março", aberta gratuitamente para visitação no Espaço Cultural da Unifor até o próximo dia 12 de setembro.

Com cores e sentimentos, além de inspirações na natureza, Sérgio Helle se dedica inteiramente às artes há oito anos e carrega uma série de experiências e histórias, não só em suas pinturas, mas em suas palavras. O artista conversou com a Frisson e falou um pouco sobre sua trajetória. Confira: 

Frisson: Pode relembrar conosco um pouco sobre como começou sua carreira artística? Quantos anos tinha e quais foram as primeiras linguagens que teve acesso? 

Sérgio Helle: Minha lembrança mais remota é a de quando tinha cerca de cinco anos, ao fazer meu primeiro desenho. Lembro-me da sensação de que podia criar o que quisesse, um misto de poder e de independência. Tinha desenhado um Batman, copiado de uma revista em quadrinhos. É impressionante como essa lembrança até hoje é muito clara. Não conhecia nenhum artista, de longe nem de perto, mas era o que eu queria ser. Anos depois, lembro-me de uns desenhos de peixe de Aldemir Martins, reproduções que ficavam na casa da minha tia. Lá também havia uma tela de Chico da Silva enrolada numa gaveta – até hoje não sei se era original ou uma cópia. Eu desenhava tudo o que via. Lembro-me também dos quadros da Sinhá d’Amora no Museu Vicente Leite, no Crato. Achava-os lindos, ainda hoje acho. Esses foram os meus primeiros contatos com a arte. 

Frisson: Como percebeu que a arte poderia ser a sua profissão? Lembra um pouco sobre sua primeira ação profissional como artista? 

Sérgio Helle: Sempre disse que ia ser artista. Desde criança. Para me manter economicamente, quando fiz 18 anos, fui trabalhar com publicidade. Procurei um trabalho que lidasse com criatividade e imagens, trabalhei como programador visual e diretor de arte por muitos anos, mas sempre por meio período, nunca aceitei trabalhar em período integral porque queria continuar pintando. Nunca parei de pintar, continuei fazendo exposições e participando de vários salões e coletivas. Há oito anos, quando montei meu ateliê passei a me dedicar integralmente às artes.

Frisson: O senhor nasceu no Crato. A cidade influencia de alguma forma na sua arte?

Sérgio Helle: O Cariri é uma região que tem grandes artistas, mas vim morar em Fortaleza muito novo, com dez anos de idade. Toda minha formação artística foi em Fortaleza. Para suprir a falta de uma universidade de artes plásticas e uma inesgotável sede de conhecimento, eu fazia todos os cursos disponíveis que tivessem alguma relação com artes visuais, o que incluía serigrafia, desenho publicitário, pintura, história da arte, xilogravura, gravura em metal, oficinas de papel artesanal e até mesmo cenografia e iluminação de espetáculos teatrais. Houve uma época riquíssima de cursos semanais no Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará (Mauc). Eu os adorava, fazia todos. No Mauc, fiz curso de modelo vivo com Anchises, estudei com Vivian Gotheim, Bené Fonteles, Jorge Carvajal, Eduardo Eloy, Roberto Galvão, Luiz Áquila e Luiz Piza. Minha formação artística veio assim, aos pedaços.

Frisson: Sua primeira exposição foi na XIII Mostra dos Novos, em 1980, em uma exposição coletiva. Lembra um pouco como foi a exposição, de como estava se sentindo?

Sérgio Helle: Acho muito importante os salões e exposições que permitem artistas iniciantes mostrem os seus trabalhos. O Salão dos Novos fazia esse papel. Acho que faz falta hoje um salão assim, mas o tempo encontra outras maneiras de mostrar o seu trabalho, a internet, com as redes sociais cumprem, em parte, essa função.

Frisson: Você foi um dos primeiros artistas cearenses a utilizar o computador como ferramenta artística. Pode falar um pouco sobre essa linguagem?

Sérgio Helle: Em meados da década de noventa, eu tinha ido estudar em Paris e lá vi pela primeira vez um computador com imagens. Logo pensei que daria para desenhar naquela ferramenta. Quando voltei, comprei o meu primeiro computador e me aventurei em descobrir suas possibilidades para fazer arte. No início era tudo muito precário. Desenhava com mouse, os arquivos demoravam, as impressoras não tinham qualidade. Nessas últimas décadas a tecnologia evoluiu e permitiu que o gesto de pintar fosse ficando cada vez mais orgânico e natural. Também faço pinturas com acrílico e técnica mista. Chamo as pinturas executadas no computador de infogravuras. São obras em série, assinadas e numeradas, impressas em tela, pedra e linho.

Frisson: Qual você acredita que seja sua marca como artista? E seu propósito? 

Sérgio Helle: Acho que o que caracteriza mais o meu trabalho é a infogravura, por ter sido pioneiro e descoberto meu próprio caminho com experiências de tentativas e erros. Há mais de uma década venho me aproximando de temas ligados a natureza, com a série "Acqua" e ultimamente com a "Paradisus" e "Resurgentis".  Acredito que o mundo precisa aprender a conviver com a natureza sem destruí-la. Precisamos rever nossos hábitos de consumo, exigir leis rígidas de proteção animal e das florestas. Estamos em um governo onde as queimadas dispararam e a fiscalização e multas praticamente desapareceram. Parece que o Ministério do Meio Ambiente trabalha contra quem deveria proteger. "Resurgentis" nasceu dessa necessidade. É um grito de revolta, mas também de esperança. Fé que as forças mais essenciais do universo irão regenerar feridas tão profundas.

Frisson: Você costuma usar cores marcantes e usar elementos da natureza. Pode explicar um pouco sobre esse estilo de pintura? 

Sérgio Helle: Na série "Paradisus" as cores vinham como renascimento das formas das plantas ressecadas e retorcidas. Acho que o meu trabalho é um mosaico, quase um quebra-cabeça, onde combino imagens coletadas por mim criando um universo pessoal. Com critérios intuitivos, estéticos e em alguns casos até panfletários. Na atual série, Resurgentis, a cor aparece pontualmente, discretamente, com a vida voltando a brotar de uma natureza ressecada.

Frisson: Há algum objetivo como artista que ainda você se sinta que não tenha alcançado ou alguma meta que ainda gostaria de alcançar?

Sérgio Helle: Fico sempre emocionado com a reação de muitas pessoas, que mesmo sem uma formação artística, se sentem tocadas com o meu trabalho. Acredito que a arte tem esse poder. Durante toda minha infância e juventude sonhava em viver do meu trabalho como artista, acho que consegui mais que isso. Viajei por muitas cidades e países levando o meu trabalho, foram experiências e oportunidades incríveis. Me sinto privilegiado por trabalhar com algo que amo e por poder compartilhar esse trabalho com tanta gente.

Frisson: Você atualmente está como uma exposição na Unifor. Pode falar um pouco sobre a exposição? Há alguma história por trás das peças escolhidas? 

Sérgio Helle: Águas de Março é uma exposição que retrata meus últimos sete anos de trabalho. Algumas técnicas apresento pela primeira vez, novas vertentes e caminhos que usei pra me expressar. Tem como fio condutor a morte e a vida.  Aqui são apresentadas duas séries: "Paradisus" e "Ressurgentis".

A série Paradisus veio com o interesse pelas formas das plantas quando morriam. Este olhar foi despertado pela observação das folhas de torém. A partir dali comecei a colecionar imagens e a me interessar cada vez mais pelo assunto. Em 2018 participei de uma residência artística na selva amazônica junto com 20 artistas de várias partes do mundo.  A destruição da floresta ... a pandemia… dessa junção de tragédias veio "Resurgentis", como uma esperança na força da vida. Acho que é disso que a exposição Águas de Março fala, da força da vida. Que a vida sempre encontra uma maneira de resistir, de rebrotar.                  

Frisson: Possui alguma peça que gostaria de destacar na exposição? Pode nos contar a história dela?

Sérgio Helle: Gosto de obras que trazem uma interação com o público, na exposição Águas de Março tem uma  instalação, que fica no centro do salão, intitulada Queimada, é composta de três faixas de tecido impressas, transparentes, presas ao teto, que mostram a exuberância da floresta e vai desaparecendo quando próximo ao chão, onde termina em uma pilha de carvão. Por sua transparência, interage com o espectador e todo entorno. Em outro espaço tem outra instalação. Intitulada "SERRAPILHEIRA", consiste de tablado de 3x8 metros com folhas secas colhidas dos jardins da Unifor, com plantas e insetos de borracha representando a vida que rebrota dos resíduos de vida. É uma instalação que encanta as crianças. Gosto de pensar em criar novos públicos.

Frisson: A arte teve que passar por mudanças na pandemia. Como o isolamento influenciou sua arte? 

Sérgio Helle: O meu ateliê fica no mesmo prédio em que moro. Acho que eu usei o trabalho pra manter minha sanidade. Acho que seria previsível que em tempos tão pesados e sombrios isso iria se refletir de alguma forma no trabalho. Resurgentis começou assim, como se fosse uma vertente da série anterior, Paradisus. Ainda tendo a natureza, a vida e a morte, como referência; o cenário ficou mais cinza e sombrio, as imagens mais nítidas, quase fotográficas. Mas sou uma pessoa otimista. Sempre. Dessa destruição surgem insetos e a vida rebrota. Mostrar a força e a resistência da vida nunca foi tão essencial.

"Acho que seria previsível que em tempos tão pesados e sombrios isso iria se refletir de alguma forma no trabalho"

Sérgio Helle

Frisson: O que é arte, para o senhor? E qual seu papel na sociedade? 

Sérgio Helle: A arte é um elo entre indivíduos que se identificam; uma conexão em códigos e linguagens somente decifráveis, mesmo que em parte, por quem comunga de um mesmo dialeto ao exercê-la ou apreciá-la. Cabe ao artista, ou a quem o representa, encontrar estes que também comungam de sua visão. A função da arte é transformadora, de guiar por caminhos e olhares nem sempre percorridos, transformando o que está ao seu redor. 

O artista tem no olhar do outro o alimento vital para o seu trabalho, mas existem artistas que se bastam, que sua fé individual se resume a si mesmo. Mostrar ou não o resultado ao público é uma decisão pessoal e única. O artista pode, e deve, encontrar no seu trabalho um refúgio, transferir suas angústias alegrias e encontrar respostas, que podem ser compartilhadas ou de próprio usufruto. Transformar a si mesmo também é divino.

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